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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Você se parece com minha avó?

Rubem Alves

Meus amigos que se reúnem comigo para ler poesia resolveram que, nesse Natal, só iremos dar brinquedos e só queremos receber brinquedos. E isso por uma razão teológica.

Todos aprendemos no catecismo que no Natal acontece o mistério da encarnação: Deus, aquele que enche o universo, resolveu que o melhor mesmo era tornar-se criança. E isso para a salvação dos homens. Jesus nasceu para nos salvar.

Salvar do quê? Aqui começam as discordâncias. Porque a teologia ortodoxa diz que ele nasceu para nos salvar do Inferno. Mas você acredita mesmo que Deus é um torturador que mantém seus desafetos numa câmara de torturas, por toda a eternidade? E ainda por cima que ele vê e se alegra com o sofrimento dos infelizes, como dizia Santo Tomás de Aquino? Você poderia amar um Deus assim cruel? Quem assim se alegra com o sofrimentos dos homens não pode ser um Deus de amor. Só pode ser o Diabo.

Salvar de quê? Responde a Adélia Prado: ‘Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande!’ Perdição é ter ficado grande. Quem ficou grande perdeu o rumo, está na direção errada, cada vez mais longe... Pois no Natal Deus mostra onde está a salvação: é preciso voltar a ser criança. As crianças não precisam do Natal porque elas já são crianças. Somos nós, adultos, que precisamos ser salvos. O Natal é para nós, para nos lembrarmos da felicidade perdida. E não existe remédio mais poderoso para transformar os grandes em crianças que um brinquedo.

Já contei que minha mãe era pianista. Ela me ensinou o gosto pela música erudita. Mas não só. Chegou a fazer parte de uma banda que tinha o nome de ‘Os Tangarás’. Tangará é um pássaro que nunca vi. O Aurélio me diz que ele tem também um outro nome: Pássaro Dançador. O Tangará dança enquanto canta. A tal banda ‘Os Tangarás’ existia para animar festas dançantes. Acho tão estranho isso, pensar minha mãe que tocava baladas de Chopin tocando maxixes e chorinhos...

Mas eu me esqueci de contar uma outra coisa sobre a minha mãe: ela brincava comigo. Mais precisamente: fazia brinquedos para mim. Fazer brinquedos para os filhos: arte perdida! Fico a pensar em quem lhe teria ensinado a arte. De uma coisa estou certo: não foi a minha avó. Minha avó não gostava de crianças, o que era o normal, naqueles tempos. Cora Coralina confirma: ‘Criança, no meu tempo de criança,/ não valia mesmo nada./ A gente grande da casa/ usava e abusava/ de pretensos direitos de educação./ Por dá-cá-aquela-palha,/ ralhos e beliscões./ Aquela gente antiga,/ passadiça, era assim: severa, ralhadeira./ Não poupava as crianças...’

Minha avó tinha vocação de cientista, estudava astronomia, espiava as estrelas com luneta. Acho que passou a vida amargurada por ter sido obrigada a casar com um homem que não era nem bonito e nem entendia de astronomia. Nunca me pegou no colo. Nunca me beijou. Nunca me contou uma estória. Gostava de me apertar o braço com força, prá machucar. Assim, não posso imaginar minha avó ensinando minha mãe a fazer brinquedos. Toda criança era ‘gata borralheira’: que tinha de ficar sob o cuidado das pretas cozinheiras, longe dos adultos, muito importantes.

No sobrado continuaram a viver duas escravas: livres, não tinham para onde ir. A Dulce, velha de olhos vermelhos, já estava remando canoa para a ‘terceira margem do rio’: passava o dia rezando terço com um beiço dependurado, numa língua que minha mãe não entendia. Mas a Iaiá gostava da minha mãe. Brincava com ela. Contava estórias que minha mãe depois me contou. Estórias de Angola. Acho que foi ela que ensinou minha mãe a fazer brinquedos.

Minha mãe fazia petecas, obras de arte. E sabem com o quê? Pois pasmem. Com palha de milho. O milho, mesmo depois de debulhado, tinha mil serventias. Podia queimar no fogão de lenha. Dá um fogaréu bonito que apaga logo, se for deixado só. Como certas pessoas, o milho precisa de um fogo de fora para queimar. Daí a expressão ‘fogo-de-palha’: entusiasmos ardentes - especialmente os amorosos - que são de curta duração. Os sabugos, os meninos brincavam com eles. Viravam boizinhos que puxavam carrinhos. Cada sabugo tinha um nome. As palhas de dentro eram alisadas pelos homens com o canivete e usadas para fazer cigarros de fumo de rolo. Mas houve alguém, artista desconhecido, que olhou para as palhas do milho e viu petecas. Era feitas assim. Primeiro se pegava um cavaco, no monte de lenha cortada, que fosse quadradinho. Depois se envolvia o dito cavaco com várias folhas de palha de milho, apertadas, formando uma almofadinha. A seguir, mais palhas iam sendo colocadas sobre essa almofadinha, sem enrolar, deixando as pontas soltas para cima, como se fossem um pescoço. O pescoço, bem amarrado e aparado, a peteca estava quase pronta. Faltavam as penas que a gente procurava no galinheiro. Se não houvesse penas soltas, pobres galinhas: a gente arrancava as de que se precisava. São as penas que garantem que a peteca vá cair do jeito certo. Enfiavam-se as penas na ponta do pescoço aparado - e eis uma peteca! É uma arte perdida. Encontrei uma, numa loja de artesanato em Florianópolis, que comprei. Não é tão perfeita como aquelas que minha mãe fazia. Olho para a peteca, me lembro da minha mãe.

Ela fazia também corrupios. Um corrupio se faz assim. Procura-se um botão bem grande, que tenha pelo menos dois furos. Várias vezes roubei botões dos paletós do meu pai. Ele nunca reclamou ou nunca percebeu. Era distraído, não se importava com um paletó sem botão. Imagino que os netos do senador Sarney, em virtude do seu hábito de usar jaquetões, têm a grande felicidade de dispor de muitos botões a serem roubados. Ele nunca vai notar. O fato, entretanto, é que as crianças de hoje não são como as de antigamente. Não se entusiasmam com botões de paletó. Mas, voltando ao corrupio. Toma-se o botão. Passa-se um fio de barbante de 40 centímetros por um dos furos e outro igual pelo outro. O botão fica no meio. Dão-se nós nas pontas dos barbantes. Aí, segurando as pontas dos barbantes amarrados, a gente gira os barbantes no mesmo movimento de ‘pular corda’. Os barbantes ficam enrolados. Aí a gente puxa firme os barbantes, no sentido do exterior. Os barbantes desenrolam e o botão gira. Gira tão rápido que chega a zunir. O ar, passando pelos furos, assobia. É terapêutico brincar com corrupio.

Me ensinou também a fazer chapéus de Napoleão e barquinhos com dobraduras de papel. Chapéu de Napoleão na cabeça e um pedaço de bambu na mão: eis um guerreiro! Barquinho de papel na enxurrada: eis o Soldadinho de Chumbo de uma perna só apaixonado pela bailarina, do conto de Andersen!

Fico comovido lembrando-me dos brinquedos que minha mãe fazia. Imagino que Maria também deve ter feito brinquedos para o menino Jesus. Pena que não haja uma tela que represente esse momento sublime! Que brinquedos teria ela feito?

Natal é o tempo do acriançamento. É preciso dar brinquedos de presente. Sugiro que você pense nos brinquedos que você sabe ou pode fazer. As Bordadeiras de Brasília, enquanto papeiam, fazem lindos bordados! Que tal você começar a fazer bonecas de pano enquanto vê televisão? Eu mesmo tenho duas, feitas por uma pobre mulher do nordeste. Armar quebra-cabeças é um ótimo brinquedo e uma excelente terapia. Contrariamente ao nome, o quebra-cabeças deveria se chamar ‘conserta-cabeças’. Enquanto se arma o quebra-cabeças, a cabeça para de pensar aflições. E é um jeito de a gente estar junto com os filhos. Cada peça que se encaixa é uma felicidade! E, com isso, sem saber, as crianças vão desenvolvendo o pensamento lógico. E a felicidade de empinar pipas? A felicidade começa quanto a gente faz a pipa. Não me esqueço do que senti quando, menino de pés descalços, consegui por uma pipa lá em cima pela primeira vez! Fazer pipas é uma arte. Empinar pipas é um prazer! Que tal levar seus filhos a empinar pipas na manhã de Natal? Vá passear na feira hippie. Lá você encontrará brinquedos artesanais deliciosos e baratos: a Mancala, jogo africano; piões de todos os tipos; bibloquês. Confesso um fracasso: nunca consegui acertar o pino no buraco da bola!

Mas o melhor mesmo seria se você começasse a fazer brinquedos. Eu fazia brinquedos com caixinhas de fósforo, carretéis vazios de linha, bambús, talos de aboboreira (com eles se fazem divertidos instrumentos musicais!), rolhas, dobraduras de papel. Você poderá até fazer um rebanho de carneiros usando batatas e palitos.
Você achou tudo isso bobagem? Então, você se parece com a minha avó. Trate de se salvar. Repita comigo a reza da Adélia: ‘Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande...’
(Correio Popular, Caderno C, 17/12/2000.)

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