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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Verdade é Plural

O pensamento ocidental tem sido por longo tempo dominado pela ideia de que o erro é plural e a verdade é singular. Podemos estar errados de muitos modos diferentes, mas certos de um modo só. De acordo com essa visão, que podemos chamar de monismo ou singularismo, só existe uma forma correta de se entender o mundo, um único verdadeiro sistema de moralidade, um único modo de se conduzir uma vida correta, uma única religião verdadeira, um único modo de organizar a sociedade e assim por diante. Nosso dever é atingir a verdade, seja ela cognitiva, moral ou religiosa, através da razão, que é entendida como uma faculdade transcendental e quase divina que se eleva sobre as barreiras psicológicas, sociais, culturais ou de outra natureza. Essa visão de mundo tem consequências tanto positivas quanto negativas. Ela inspirou a maior parte das investigações intelectuais, as normas de debate racional e também uma determinação a expor e combater erros. 
Toda comunidade cultural representa uma forma particular de excelência humana.
Porém gerou também arrogância, intolerância, incapacidade de apreciar as diferenças, a tendência a associar diversidade com aberração e também muita violência.

O pluralismo cultural contesta essa visão de verdade e de virtude. Ele enxerga a razão como uma qualidade não semidivina ou transcendental mas humana, com tudo que isso implica. Como parte do pressuposto de que a cultura vem embutida nos seres humanos, ele sustenta que a razão é moldada e estruturada pela cultura. Isso não quer dizer que as pessoas não são capazes de criticar ou de revisar a sua cultura; quer dizer que não sejam capazes de transcender todas as sutis e profundas influências da cultura, enxergando-a a partir de um não-existente ponto de vista arquimediano. As pessoas podem substituir uma cultura por outra, mas não tem como postar-se totalmente fora do âmbito da cultura.
Para o pluralismo cultural o mundo pode ser entendido de diferentes modos dependendo de nosso aparato, linguagem, interesses e propósitos conceituais, das perguntas que fazemos e do tipo de conhecimento que buscamos e valorizamos.
Como a verdade em geral, a verdade moral ou virtude é também plural. As capacidades humanas e valores morais entram em conflito, e não podem ser integradas num sistema harmonioso sem perda. Diferentes comunidades culturais organizam-se com base em diferentes visões de uma vida correta, e fomentam diferentes capacidades, disposições e virtudes humanas. Toda comunidade cultural representa uma forma particular de excelência humana, com todas os seus pontos fortes e limitações característicos. Nenhuma cultura é perfeita, nenhuma encarna a virtude de modo completo e nenhuma é por completo desprovida de virtude.
Toda cultura, portanto, requer outras como interlocutores críticos. No curso de um diálogo com elas, cada cultura torna-se consciente de sua especifidade e ganha acesso a outros valores, a virtudes que ela mesma marginaliza ou ignora. Quando se pressupõe que a verdade e a virtude são singulares, nenhum diálogo dessa espécie é necessário. Na melhor das hipóteses, seu propósito é expor os erros dos outros e refutá-los num espírito de agressão e de arrogante condescendência. Na visão da cultura pluralista, o diálogo é central à vida moral e intelectual, sendo o único modo de se adquirir uma compreensão completa de sua matéria de estudo.
Pluralismo cultural é inteiramente diferente de relativismo, e não deve ser confundido com ele. Para o relativista, a verdade é relativa e sua validade está limitada a uma comunidade em particular. Como o monista, o relativista pressupõe que a verdade é singular, sendo a única diferença entre os dois que enquanto o primeiro declara a validade universal de um visão de mundo particular, o relativista a limita a uma determinada unidade social. O pluralismo cultural contesta os dois.
O pluralismo cultural é uma ideia radical com implicações profundas. Ela nos imuniza contra a tendência sedutora e muito comum de pensarmos que só nossa visão de mundo, nossa religião ou sistema de moralidade é que são corretos, e podem ser com justiça serem usados para julgar todos os outros. Ele portanto gera humildade, respeito aos outros, abertura ao diálogo e o espírito de auto-crítica. Encoraja-nos também a ver os outros não como estranhos ou como ameaça, mas como parceiros de conversação que nos trazem os dons da auto-consciência e o acesso a seus tesouros, e cuja existência é pré-condição de nosso crescimento.
No nível social e político o pluralismo cultural implica que o discurso público não pode ser conduzido num único idioma conceitual e moral, devendo passar a admitir uma diversidade de dialetos e linguagens. Isso põe em dúvida o conceito dominante e dúbio de que uma sociedade não tem como ser estável a não ser que todos os seus membros concordem substantivamente a respeito dos valores de uma vida correta. Também desafia nossos juízos estabelecidos sobre conceitos centrais como autonomia pessoal, igualdade, liberdade e justiça, que podem todos ser definidos e amarrados de modos diferentes. Não é de se admirar que a predominância do pluralismo cultural em anos recentes tenha desestabilizado as filosofias moral, social e política tradicionais; que tenha nos forçado a repensar nossos pressupostos e a redesenhar nossas instituições sociais e políticas. É provável que essa tarefa vital, iniciada por Rawls e continuada por seus seguidores e críticos, nos ocupe ao longo de toda parcela de futuro que somos capazes de prever.
Bhikhu Parekh, em The Philosopher’s Magazine

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