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sábado, 19 de março de 2011

A fé como falha moral

É sabido que certo personagem de Dostoiévski argumentou que “sem Deus não existe moralidade” – isto é, um ateu convicto não teria qualquer motivo real para sustentar uma postura de correção moral. Segundo essa linha de pensamento o homem sem fé em Deus, desprovido de cadeias adequadas para refrear as suas inclinações, tenderia irremediavelmente a chafurdar na imoralidade. O ateu sentir-se-ia imediatamente livre para adulterar, roubar, mentir, matar, canibalizar, prostituir-se e prostituir – e faria tudo isso e muito mais sem qualquer freio ou constrangimento.
Da crença em Deus dependeria então (quase como defendeu Plínio Salgado) toda a defesa da virtude, da castidade, do heroísmo, da delicadeza de sentimentos, da integridade individual e do pudor coletivo.
Como confirma a postura de muitos ateus declarados, em tudo tão ou mais íntegros e gente boa quanto muitos religiosos, parece seguro afirmar que o autor russo estava errado. Pessoas sem Deus parecem de fato sustentar vidas íntegras – a não ser que, como não é inconcebível, os ateus estejam na verdade muito menos “sem Deus” do que os crentes gostariam de pensar.

De qualquer forma, nunca simpatizei com esse argumento “sem Deus não haveria moralidade”. Além de me parecer racionalista demais, a defesa deixa a impressão de que a moralidade é por si mesma coisa mais admirável do que Deus – como se a existência de Deus precisasse da moralidade para ser justificada.

Finalmente, no entanto, o inevitável aconteceu: um ateu mobilizou o argumento inverso para atacar a fé. Segundo George M. Felis, professor de filosofia no Georgia Perimeter College, a moralidade não é inconcebível sem Deus; pelo contrário, ela é inconcebível com ele.

Sejamos brutalmente honestos. Descrever a fé como “a falência da razão” é, na melhor das hipóteses, meia-verdade.

Há alguns que afirmam que suas convicções religiosas estão fundamentadas apenas na razão e em evidências palpáveis, mas nunca encontrei eu mesmo criatura tão rara. A mais sagaz argumentação jesuítica que busque justificar a religião racionalmente não deixará o componente “fé” inteiramente de lado [...]. Por “fé”, neste contexto, quero dizer (e crentes honestos também) acreditar em alguma coisa porque se escolhe acreditar nela, sem levar-se em conta a ausência de evidência/razões para se acreditar.
Se as crenças de alguém não podem ser justificadas, e se as ações de uma pessoa são moldadas e justificadas pelas suas crenças, então algumas ações não podem ser justificadas.
A fé não é apenas a falência da razão: a fé é a deliberada abdicação da razão. A fé não é um erro na mesma linha de um erro de lógica. Não é simplesmente um lapso que não leva em conta uma evidência que deveria ser levada em consideração. A fé é a declaração de que a razão é muito boa em determinadas áreas, mas que sua eficácia termina aqui onde o crente afirma que ela termina. E nenhum argumento pode ser concebivelmente dado para que não se apliquem os critérios da razão em um dado assunto, porque o argumento em si deve aderir aos critérios racionais [...].

Já ouvi gente dizer coisas assim:

– Não é algo racional. Você tem de sentir.

– Crer não é questão de raciocínio ou de argumentação. Você não tem como argumentar sobre Deus porque Deus está além de qualquer argumentação [...].

O motivo pelo qual isso é tão importante não é simplesmente porque gente que abraça a fé acabará tendo crenças mal-formadas. A razão não é apenas normativa no sentido mínimo de que há estruturas dentro das quais ela deve operar ou não será mais razão. Há também um componente ético na razão, porque as crenças de uma pessoa estão intimamente ligadas às suas ações [...].

Se a pessoa abre mão da razão na formação das suas crenças, ela abre mão do único acesso à verdade que temos. Os seres humanos não tem qualquer capacidade perceptual para discernir a verdade – do modo como somos, por exemplo, imediatamente capazes de discernir cor e forma. O mais perto que podemos chegar da verdade é justificando nossas crenças. A fé não é justificação, é a suspensão de todos os critérios de justificação. A fé declara que determinadas crenças – essas fundamentais, bem no centro da minha visão de mundo e que moldam o modo como eu vejo as coisas – não precisam ser de forma alguma justificadas.

Se as crenças de alguém não podem ser justificadas, e se as ações de uma pessoa são moldadas e justificadas pelas suas crenças, então algumas ações não podem ser justificadas.
Há um componente ético na razão.
Aqueles que vivem pela fé não são intelectualmente inferiores. Pode-se até dizer que requer-se um certo brilhantismo, ou pelo menos extraordinária flexibilidade mental, para entregar-se à ginástica mental que exige aplicar-se a razão à maior parte das áreas da vida e suspendê-la por completo em outras áreas. Não se trata portanto de questão de intelecto. E dizer que a fé é a falência da razão ou a abdicação da razão é apenas dar um nome a ela, não explicar o que há de errado com ela. Creio que algo mais forte pode ser dito.

A fé é uma falha moral. A abdicação da razão é a abdicação da justificação. Quando as pessoas deixam de tentar justificar as suas ações no mundo de forma racional – quando decidem agir, ao invés disso, pela fé – elas podem muito bem fazer qualquer coisa e chamar isso de correto e bom.

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