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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Morte nas trincas da competência

Ricardo Gondim

Na passarela do Miss Universo, beleza depende de uma polegada. No estádio, centésimos definem o campeão. Para cada vaga na melhor faculdade, centenas ficam de fora. O robô virou dragão que rouba emprego na linha de montagem. As regras se tornaram claras: não há espaço para quem não tem competência ou excelência.

As exigências estão cada vez maiores. Para se manter na superfície, é preciso mostrar-se excepcional. Não basta capacidade intelectual. Com a cibernética, só superdotados têm vez. Todo mundo já conhece a definição do nerd: jovem austero, grave, que não conhece outra vida senão estudar - encarnação do gênio de óculos grossos e engordurados.

A prosaica lenda da cigarra e da formiga voltou a estruturar o imaginário popular. Brincar ou passar fome. O futuro pertence às formigas operárias e não às cigarras cantoras.

Lucidez filosófica e integridade vocacional foram substituídas por “Pensamento Estratégico”. Esqueça-se “Quociente de Inteligência”. As versões cult de “Inteligência Emocional” ficaram para trás. Passa a valer “Inteligência de Risco” - capacidade de manobrar e apostar nos voláteis cassinos financeiros. Prodígio é quem sabe transformar tempo em dinheiro e afeto em lucro. Apareceu um novo tipo de genialidade: moças e rapazes bem dotados, com tirocínio para ganhar bilhões de dólares; basta-lhes uma ideia na cabeça; nem precisam de martelo, foice, trator ou alicate na mão.

A internet não aplainou o mundo, abriu espaço para que entrem os antenados e conectados. Para estes, a rede tem tudo. Sites, blogs, ferramentas de busca, aplicativos e GPS comunicam, informam, orientam. Negócios, conspirações, namoros, casamentos e até suicídios acontecem online.

Muitas vezes alheia à concretude humana, a internet também criou uma “raça de impolutos”, de inoxidáveis. Nas redes sociais todos riem, se descrevem servos e servas de Deus, amantes da vida e, claro, sinceros. Rugas desaparecem nos avatares, devidamente maquiados no photoshop.

Infelizmente, mesmo encantada consigo mesma, essa geração demonstra pouca alegria. A vida só tem graça nas imagens digitalizadas. O leque de cores é infinito. A possibilidade de ser feliz se transferiu para o espaço binário.

Espiritualidade ganhou novos contornos. O deus do ineditismo tecnológico tem o seu altar. Produtos são lançados em reuniões que parecem um culto. Catedrais se erguem para celebrar a transcendência que só os computadores podem dar. O Paraíso já vem com a maçã mordida.

Respira-se uma nova liberdade. A democracia virtual abriu espaço para todo tipo de gente. Poetas e censores se encontram. Mercenários e militantes se conhecem. Milhões se sentem motivados a escrever em blogs. Autoproclamados especialistas surgem por todos os lados. Enaltecer ou esculhambar ficou fácil. Gente ávida por fama passa horas procurando maneiras de se projetar em cima dos outros. Heróis de araque, covardes em qualquer embate tête-à-tête, vociferam zelo. Analfabetos funcionais, que nunca leram um livro, acham-se capazes de criticar poetas de primeira grandeza. (Chico Buarque riu - para mim, um riso nervoso - , mas eu me assustei com os comentários ácidos sobre sua obra).

Sem saudosismo, sem querer estancar o curso da história, acredito possível humanizar a internet – antes que se transforme no novo ópio da humanidade. Ainda dá para fugir de idealizações, triunfalismos e bravatas, típicos de quem se esconde atrás da tela. Aterrissemos e vamos encarar a miséria como insulto, a guerra como anacronismo e o trabalho infantil como maldição.



Minha esperança se sustenta na tênue percepção de que um dia, enfatuados com power-points bonitinhos, vamos desejar botar os pés no chão. Por enquanto, dá para pedir: -Por favor, não deixemos a vida se esvair pelas trincas da competência.

Soli Deo Gloria

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