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domingo, 10 de julho de 2011

Os recatos pós-cristãos

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

“Basta ao discípulo se equiparar ao mestre”.
Mateus 10:25


John Updike, em sua introdução a Soundings in Satanism, sentenciou que nosso mundo se encontra na constrangedora situação de ter superado moralmente o passado que idealiza. “Infelizmente nos tornamos, em nosso protestantismo, mais virtuosos do que os mitos que nos ensinaram a virtude: achamo-os selvageria.”

A parte mais fácil de verificar desse notável veredicto é a última: de fato achamos selvageria muito do que já foi reverenciado como história sagrada. À luz do nosso presente estado de iluminação, a maior parte das narrativas sagradas e de seus heróis parecem-nos desconcertantemente brutais, primitivos e incivis: toscos.
“Somos mais virtuosos do que os mitos que nos ensinaram a virtude.”
Mesmo para os que se consideram judeus ou cristãos praticantes, é difícil acompanhar sem revirar o estômago a barbárie de grande parte das histórias tradicionalmente edificantes da Bíblia. Como manter um piedoso distanciamento diante de exemplos como a das filhas de Ló, que embebedaram o pai e mantiveram relações sexuais com ele na tentativa (bem-sucedida) de gerar descendentes porque queriam povoar uma terra que julgavam (erroneamente) deserta? Que dizer da moral dúbia de Jacó, que enganou seu pai cego a fim de extorquir dele a benção que pertencia por direito a seu irmão mais velho – sendo que esse mesmo Jacó receberia mais tarde o selo de aprovação de Deus, teria seu nome mudado para Israel e se tornaria o ancestral dos israelitas? Como perdoar os onze irmãos de José, que por inveja venderam seu irmão como escravo a uma caravana de mercadores – e que se tornariam páginas depois (com José) os patriarcas das doze tribos de Israel? Que dizer de Judá, que freqüentava prostitutas impunemente e foi reverenciado ancestral do rei Davi e de Jesus? Ou do próprio Davi, que assassinou com dolo o marido da mulher que cobiçava, tornou a viúva sua favorita e aparece no placar bíblico como “homem segundo o coração de Deus”? Nossa sensibilidade talvez resista à noção dos sacrifícios diários de animais, dos fogos eternos e do derramamento ritual de sangue exigidos pela liturgia judaica, mas como não tremer diante das populações indígenas de Canaã extirpadas pelo povo de Israel – homens, mulheres, crianças e animais exterminados não apenas com a permissão de Deus, mas segundo suas ordens explícitas?

Se foram histórias como essas que nos ensinaram a virtude o nosso parece ser um caso claro, não previsto pela injunção de Jesus em Mateus 10:25, de discípulos inconformados que acabaram superando o mestre. O teísmo é opção cada vez mais difícil de engolir, em grande parte porque sabemo-nos melhores do que essas figuras que devemos oficialmente admirar – canastrões tão pouco sofisticados em sua selvageria que nem como exemplo negativo funcionam mais.

Updike está certo, portanto, ao observar que hoje em dia julgamos rudes e pouco civilizados os mesmos eventos, rituais e narrativas que foram considerados universalmente edificantes durante grande parte da história. Concordo em parte, como se verá, que foi com essas antigas histórias que aprendemos a virtude; sua hipótese central, de que superamos moralmente esses mitos formadores e os heróis que os povoam, requererá porém cautelosa refutação.

continua…

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