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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O aniquilamento da não-violência

Investigado por   Paulo Brabo

Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.
Bernard Charbonneau, falando em nome do anarquista cristão Jacques Ellul

Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de não-agressão, o capitalismo neoliberal possibilitou, evangelizou e metastaseou planeta afora. O nosso é um mundo em que não há mais santos, pacifistas ou mesmo gente boa. Ele foi de fato concebido, no seu ventre ideológico, de modo a que não subsista a virtude nem tenha como subsistir.

Houve épocas em que bolsões de paz e de boa vontade, muitos deles sustentados diretamente pelo sopro de Jesus de Nazaré, proveram santuário a este mundo. Os ramos da família anabatista em particular (por exemplo, os irmãos menonitas) foram por séculos os portadores de uma longa e radical tradição cristã de não-violência – inspirando e sendo inspirados por gente como Erasmo, Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King. Um fogo semelhante nunca deixou de arder no coração da experiência católica, encarnado (por exemplo) nas paixões de Francesco, no ideal da aventura monástica e na lucidez de Dorothy Day. A não-agressão está, além disso, muito entranhada no ideário de tradições religiosas não-cristãs, em especial no budismo e no jainismo.

Esses, no entanto, foram ideais e realidades de uma outra era, açudes esgotados e sonhos anulados pela amoral capitalista. Ninguém mais é livre, por isso ninguém mais tem como dar-se ao luxo de ser bom.
Oculta por trás de multiformes manifestações e múltiplos falsos destinos, o capitalismo tem uma só regra, mas é uma regra rígida: conforme-se. Não me interessa o quê, consuma. Acredite no que quiser, apenas compre. Quem não sabe comprar deve ser ensinado a aprender, e as culturas e pessoas que não estão interessadas em consumir ou em impor seu modo de vida às demais estão condenadas à execração e à morte social, cultural e econômica.

Resistir é inútil. A função da propaganda (e a propaganda ocupou cada centímetro do espaço social) é evangelizar você com a má nova de que você não é feliz, e de que não terá como ser feliz até aprender a comprar o quanto baste, isto é, sem parar. Olhe pra você. Você está longe de ter toda a autorrealização que pode comprar. Para imprimir credibilidade à sua mediocridade você deve consumir. Para se destacar você deve fazer como todos.

A questão central, que as luzes do shopping simplesmente não nos deixam enxergar, é que consumir é agredir, especialmente num mundo interligado como o nosso. Não restam pessoas pacíficas entre nós, nem uma sequer. Não há gente não-violenta, porque todos consumimos. 

Há inúmeros sentidos em que, dentro de um capitalismo global, consumir é agredir. Talvez baste citar dois.

Primeiro há a questão dos recursos naturais, e mesmo aqueles dentre nós que creem que o espírito empreendedor não tem limites deveriam poder entender que os recursos têm. Se 20% da população da Terra consomem 80% dos recursos disponibilizados pelo planeta, resulta em primeiro lugar que os bem-sucedidos dentre nós são os que desfrutam muito desautorizadamente do que não é seu. Não importa o que você acredite, o seu MBA não o qualifica a usar o recurso planetário que pertence tanto a você quanto ao seu irmão de um dos sertões do mundo. Na marca dos 7 bilhões de condôminos, a Terra é um cortiço que está ficando pequeno, e nesse condomínio uma minoria dilapida segundo os seus (os nossos) próprios caprichos um patrimônio que é comum, e despeja ao mesmo tempo o seu (o nosso) lixo sobre a cabeça de uma minoria que absolutamente não é responsável por ele.

Além disso, a presente taxa de utilização dos recursos naturais representa não apenas um ultraje para o presente, para gente que está viva agora, mas uma ameaça para o futuro – uma ameaça para os que nascem hoje e terão de encontrar espaço de vida e de dignidade amanhã. Não há como não concordar com os que alertam que é tarde demais para ser pessimista: “sustentável” é menos uma diretiva do que um sonho. Sustentável é o que o futuro seria na melhor das hipóteses, se o nosso presente também fosse. Consumir é agredir porque é de fato consumir, fazer desaparecer – é queimar um mundo que não nos pertence, e como se não houvesse amanhã.

Em segundo lugar, consumir é agredir porque, num espaço de produção globalizado, você não é obrigado a testemunhar as injustiças que patrocinam os seus hábitos de consumo. O capitalismo não apenas alienou o trabalhador do fruto do seu trabalho, conforme diagnosticado por Marx, mas separou também o consumidor da realidade do valor e da produção. Amigo, nada neste mundo custa 1,99. Tudo neste planeta é muito valioso. Tudo é caríssimo, em especial as horas-gente e as horas-futuro, que são horas-vida. Acredite, a máquina fotográfica que você tem no bolso é uma milagre e o seria em qualquer tempo e qualquer universo; se você paga por ela coisa de 30 almoços é porque alguém está pagando o restante do valor – e via de regra é o chinês apertado numa fábrica, com as mesmas condições de conforto e o mesmo espaço para se esticar que o frango industrial de que você comprou ontem o filé. E os operários em todo o mundo se sujeitam a esse tipo de indignidade apenas porque vendemos a eles, constantemente e com toda a eficiência, o sonho de aprenderem a comprar com a mesma eficácia que nós mesmos. E quem não gostaria de estar no nosso lugar? Todos os que consumimos, de iPads a goiabinhas Piraquê, somos senhores de escravos.

Desse modo não é difícil entender, com Jean Baudrillard, porque discriminação e exclusão são consequências diretas e imediatas da globalização. O capitalismo tecnológico quer impor sobre as culturas e sobre os indivíduos uma solução de vida sem verdadeira alternativa; todos os que não se submetem ou não desejam esse modo de vida estão por definição discriminados e excluídos. E mesmo os que se sujeitam a desejar a solução indiferenciada tem de submeter-se ainda à pedra de moer da eterna insatisfação: a máquina capitalista só funciona enquanto e porque todos nos sentimos pelo menos um pouco discriminados e excluídos, e entendemos que o consumo do produto almejado nos curará dessa inadequação. Gente satisfeita com o que tem (ou com o que não tem) representa a morte do capitalismo; não é à toa que o capitalismo esteja tão bem de saúde.


Não foi à toa que Gandhi entendeu depressa que para abraçar adequadamente o ideal da não-agressão não bastava baixar as armas e oferecer a outra face: era preciso afastar-se deliberadamente das cadeias do consumo e adotar um modo de vida ao mesmo tempo responsável e sustentável. Ele intuiu que a verdadeira não-violência, no seu sentido mais radical da coisa, requer consumir o que se planta, vestir o que se fia, assumir a responsabilidade pelo próprio lixo, abrir mão das ilusões do consumo, abandonar as armadilhas da novidade e ignorar a ficção útil da propriedade privada1. E o capitalismo está construído de modo a que você permaneça convencido de que não tem liberdade para fazer qualquer uma dessas coisas. 


A perfeição do mecanismo está em que somos nós mesmos nossos catequizadores. Nosso modo de vida insiste, na verdade ele comprova, que não existe uma alternativa ao moinho do consumo. Você não é livre e jamais será, mas não vai sentir falta da liberdade enquanto estiver com um cartão de crédito ou sonhando com um.


Como resultado, a violência foi efetivamente institucionalizada, tendo se tornado o combustível até mesmo dos mais inocentes. A liberdade que temos, quando temos, é a de escolher, a cada momento, a agressão menor – e mesmo essa frágil decisão está se tornando cada vez mais difícil e improvável. As cadeias são cada vez mais eficazes e os encadeamentos cada vez mais complexos. Quem pode nos ensinar a viver de outra forma? Somos paupérrimos, só sabemos comprar para viver. O ciclo de agressão da produtividade e do consumo está entranhado em tudo que fazemos, tudo que desejamos, tudo que sonhamos. Os mais carolas, amantes de paz e inofensivos dentre nós patrocinam a agressão aberta e foram para sempre maculados por ela. Somos todos cúmplices e vítimas da mesma violência capital.


A tragédia está em que o amor não foi capaz de nos unir, mas a complacência universal com a injustiça nos tornou irmãos. Somos a máfia, e na máfia todos se cuidam, para que a máfia não tenha como mudar. Da máfia ninguém sai.

NOTAS
  1. Uma aspiração e um recuo semelhantes caracterizam o movimento evangélico do neomonasticismo. []

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