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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Os mesmos discernimentos

As narrativas da criação em Gênesis, na verdade todos os onze primeiros capítulos do livro, nada mais são do que mitos contados como se fossem história. Ironicamente, no entanto, o efeito do mito tem sido muito mais forte na nossa sociedade do que na dos israelitas. Não é com frequência que os israelitas mencionam o jardim do Éden na literatura subsequente; nós, porém, sobrepomos de tal modo a história do jardim do Éden com comentários, remitologizamos de tal modo a narrativa, que os próprios hebreus provavelmente acabariam por considerá-la irreconhecível, para não dizer embaraçosa. 

Nenhuma outra história teve efeito mais importante sobre o pensamento ocidental do que a narrativa do jardim do Éden. Em sua versão cristã, em especial, ela tem sido fonte das concepções ocidentais a respeito de vida, morte, imortalidade e sexualidade. Porém muito daquilo que associamos à história está ausente do texto em si; essas associações foram supridas por diversos contextos interpretativos ao longo dos séculos [...], por crentes piedosos que tentavam decifrar essa narrativa simples e até mesmo ingênua. Enquanto isso, os sutis sentidos originais foram removidos por nossas conceitualizações mais amplas.

A história explica acima de tudo que o discernimento moral nos confere uma natureza divina.
O próprio tema da aliança na Bíblia hebraica exige que os homens tenham discernimento moral. A aliança é um acordo formal entre Deus e a humanidade, e requer que os seres humanos o abracem por sua livre vontade. Para adentrar-se a aliança requer-se discernimento moral; ele é absolutamente necessário para a tarefa. Nesse sentido, a história de Adão e Eva, longe de ser apenas a história de como perdemos a imortalidade, pode ser melhor descrita como sendo “a história de como somos capazes de viver corretamente”, tendo recebido a faculdade crítica do discernimento moral e desenvolvido desse modo a habilidade de obedecer à aliança.

E não é só isso. Não apenas a capacidade de discernir certo e errado é a marca do ser humano maduro, mas há outro modo engraçado em que a história do jardim diz respeito à psicologia do desenvolvimento. Precisamente como crianças, o primeiro casal aprende o que é certo e o que é errado recebendo uma regra para obedecer, transgredindo essa regra e sendo punidos por essa razão. A narrativa está fundamentada na simples observação do modo como ensinamos nossos filhos a fazer os mesmos discernimentos. 

Alan F. Segal, Life After Death

Um comentário:

Jonas Gonçalves disse...

Muito belo o post, parabens pelo blog e continue sempre assim levando a palavra desse Deus maravilhoso.

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