sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dos mistérios de ser Deus e homem

A cristologia de Bento XVI, platônica, parte de Deus e chega em Cristo.
A de Sobrino, aristotélica, faz o caminho inverso. Eis o choque.

Por Fernando Altemeyer Junior

Há (dez dias) publicou-se a nota condenatória: “O padre Jon Sobrino tende a diminuir o valor normativo das afirmações do Novo Testamento e dos grandes Concílios da Igreja antiga. Tais erros de índole metodológica levam a conclusões não conformes com a fé da Igreja em pontos centrais da mesma: a divindade de Jesus Cristo, a encarnação do Filho de Deus, a relação de Jesus com o Reino de Deus, a sua auto-consciência, o valor salvífico da sua morte.” Notificação da Congregação da Doutrina da Fé, Vaticano, 14 de março de 2007.

Quais as razões para este gesto? Quais as razões para a condenação da obra de um teólogo tão requintado e fecundo? Terá ele diminuído o valor da mensagem evangélica e errado em seu método? Terá negado a divindade de Jesus? Terá silenciado sobre a salvação trazida por Cristo? O que diz Jon Sobrino em seus textos e o que afirma a teologia latino-americana em sua obra intelectual?

Outros tantos teólogos foram condenados nos últimos 32 anos: Hans Kung em 1975 e 1980; Jacques Pohier em 1979; Edward Schillebeeckx em 1980, 1984 e 1986; Leonardo Boff em 1985; Charles Curran em 1986; Tissa Balasuriya em 1997; Anthony de Mello em 1998; Reinhard Messner no ano 2000; Jacques Dupuis e Marciano Vidal em 2001; Roger Haight em 2004 e Jon Sobrino em março de 2007. Há algo de comum entre eles? Há razões para explicar esses conflitos dogmáticos?

Apresento aqui um quadro comparativo das teologias produzidas na América Latina e na Europa, para entender o que aconteceu com o padre jesuíta Jon Sobrino. Na América Latina, a formulação da fé é direta. Na Europa, é reflexa. Na América Latina, o ponto de partida é o rosto de Cristo transfigurado nos pobres. Na Europa, o ponto crucial é a transfiguração do Cristo na filosofia e no pensamento clássico. Na teologia latino-americana a preocupação é prática. Na Europa, é lógica. Na América Latina vemos o povo crucificado como cruz divina. Os pobres são cruciais. Na Europa fala-se do Deus crucificado como cruz humana. A Igreja é crucial. Na América Latina, a consciência histórica é um critério de seguimento de Jesus. Crer é seguir Jesus. Na Europa, o caminho de Jesus é objeto de investigação e critério para discernir entre o crer e o não crer. Crer é entender Jesus. Na América Latina, a pregação de Jesus sobre o Reinado de Deus é um contexto vital e mediação concreta para conhecer ao Deus vivo e verdadeiro. O Reino revela o amor e a verdade. Na Europa, a proclamação da verdade é a fonte segura do fazer teologia. A verdade revela o amor e o Reino.

A Cristologia latino-americana (em particular na obra de Jon Sobrino) se faz a partir da dor humana, especialmente da humanidade padecente em sua carne e corpo. A Cristologia européia se faz a partir do conhecimento humano e da angústia existencial em sua alma e mente. A Cristologia latino-americana vem de baixo para cima. Do histórico de Jesus ao ser de Jesus. Do ser de Jesus ao ser de Deus. É alinhada à escola teológica de Antioquia, ao pensamento dos primeiros evangelistas e a São João Crisóstomo. Fazer teologia muda a vida dos teólogos. Já a Cristologia européia vem de cima para baixo. Do ser de Deus ao Cristo da fé. Do Cristo ao Jesus Ressuscitado. Do Ressuscitado ao crucificado. É alinhada aos pensadores alexandrinos, particularmente ao grande doutor Atanásio.

A Cristologia latino-americana participa da esperança libertadora dos povos crucificados. É uma Cristologia ascendente, inspirada em textos clássicos dos aristotélicos e tomistas. Jon Sobrino faz parte da família espiritual que bebe desta fonte teologal. A Cristologia européia trabalha a encarnação do Verbo como manifestação salvífica de Deus. É uma Cristologia descendente, inspirada em textos clássicos dos platônicos e agostinianos. Os teólogos da Congregação da Doutrina da Fé têm bebido desta fonte espiritual.

A Igreja latino-americana construiu uma teologia que dialoga com o magistério local. E este magistério se exprimiu teologicamente em Medellin, Puebla e Santo Domingo, em documentos pastorais de serviço ao povo e ao Evangelho. O que foi escrito em Medellin, em 1968, foi uma profecia autêntica do povo de Deus. O que foi assumido em Puebla, em 1979, foi a opção do Evangelho pelos pobres e contra a pobreza. O que foi encarnado e inculturado em Santo Domingo, em 1992, foi chave interpretativa dos sinais dos tempos. A missão da Igreja não é restauradora. É anúncio feliz da vida em Cristo.

A teologia gestada em El Salvador, no Brasil, no Chile e em praticamente toda América hispânica e criola dialogou com o magistério local e universal. Assumiu colóquios fecundos com pastores como dom Luciano Pedro Mendes de Almeida e dom José Ivo Lorscheider. Foi sustentada por cardeais como Aloísio Lorscheider e Paulo Evaristo Arns, e por patriarcas da Igreja latino-americana que podem ser chamados de novos padres da Igreja: Jaime Francisco de Nevares, Alberto Pascual Devoto, Eduardo Francisco Pironio, Enrique Angel Angelelli (argentinos); Jorge Manrique Hurtado (boliviano); Avelar Brandão Vilela, Fernando Gomes dos Santos, Helder Pessoa Câmara, Romeu Alberti (brasileiros); Enrique Alvear, Manuel Larrain Errazuriz, Raul Silva Henríquez (chilenos); Gerardo Valencia Cano (colombiano); Oscar Arnulfo Romero (salvadorenho); Leônidas E. Proaño Villalba, Pablo Muñoz Vega (equatorianos); Juan Gerardi Conedera (guatemalteco); Marcelo Gerin (hondurenho); Bartolomé Carrasco Briseño, José Salazar López, José Alberto Llaguno Farias, Sergio Méndez Arceo (mexicanos); Marcos Gregório McGrath (panamenho); Ramón Bogarín Argaña (paraguaio); Juan Landázurri Rickett (peruano) e Carlos Parteli Kéller (uruguaio). Todos filhos do Vaticano II que retomaram a antiga patrística. Padres testemunhas como Oscar Romero e Enrique Angelelli. Mártires que semearam igrejas em todo o continente, como na expressão de Tertuliano. Vivem a teologia na doação de suas próprias vidas.

A segunda onda patrística dos apologistas que defenderam a fé face ao pensamento grego e ao império romano, também tem paralelo em bispos como Manuel Larrain e especialmente no indígena Leônidas Proaño. Apologistas das culturas indígenas e da fé verdadeira. Vivem a teologia na escuta dos clamores surdos de seus povos.

O sofrimento pessoal de Jon Sobrino pode ser um momento fecundo para que se descubra que a humanidade sacratíssima de Jesus é o caminho seguro para contentar a Deus, para alcançar grandes graças do Espírito Santo e, sobretudo, pode ser a porta segura para que Deus nos mostre seus grandes segredos. São Francisco mostra isso ao receber as chagas de Cristo. Santo Antônio de Pádua, ao apresentar em seu colo o menino Deus. São Bernardo e Catarina de Sena em seus poemas de amor à humanidade de Deus feito humano. E, enfim, a doutora Santa Teresa de Ávila, que em seu Livro da Vida, no capítulo 22, afirma categoricamente que o melhor caminho para a mais alta contemplação de Deus passa pela humanidade de Jesus.

*Fernando Altemeyer Junior, teólogo, doutor em Ciências Sociais e ouvidor da PUC de São Paulo.

via: outraespiritualidade.blogspot.com

domingo, 13 de dezembro de 2009

Deus e a tragédia humana




Ricardo Gondim

Prezado José,

Acabei de ver Baraka, um filme lindíssimo sobre a relação humana com a terra e com o divino; também sobre o vórtice dos processos de morte que imperam ao redor do Globo (mais sobre o filme aqui) Chorei em várias cenas. A palavra Baraka é uma antiga expressão sufi que significa silêncio da bruma (talvez o mesmo silêncio que fez Elias perceber a presença de Deus).

O filme mostra a luta de homens, mulheres e crianças pela sobrevivência, e como são muitas vezes despercebidos os processos de antivida, tão banalizados por toda parte. E sempre a serviço da morte, para destruir a terra e seus habitantes.

Engasguei quando o filme para nas fotografias de duas meninas mortas em holocaustos diferentes - Auschwitz e Camboja. O olhar puro de duas vidas anônimas destruídas sem necessidade, levaram-me a um choro convulsivo; também vazei lágrimas na cena de um guri pedindo esmolas, com um cobertor azul sobre as pernas.

Logo que o filme terminou murmurei em voz alta: o deus que intervém não existe (você se lembra da primeira frase do documentário Ilha das Flores?). Esse deus que esporadicamente vem trazer livramento aos seus eleitos é uma construção ideológica para acalmar as multidões. A tragédia humana, reduzida a mera máquina na linha de produção de cigarro ou automatizada pelo vai e vem do trânsito ou apequenada abaixo de sua dignidade em monturos de lixo, não comporta a ideia de um Deus todo-poderoso. Que deus é esse que acorrentado a um rancor milenar, nada faz pela sorte de homens e mulheres, mas os abandona na sorte mais cruel? A concepção de uma divindade ofendida, que resfolega ódio contra tantas pessoas condenando-as sofrer agruras indescritíveis, é absurda. Precisamos recompor a imagem que fazemos de Deus.

Padre François Varrilon (um francês maravilhoso) afirmou em seu livro “Alegria de Crer e Viver” (infelizmente esgotado): "Por vezes, diz-se: Deus pode tudo! Não, Deus não pode tudo, Deus não pode senão o que pode o Amor. Porque ele não é senão o Amor. E sempre que nós saímos da esfera do amor, enganamo-nos sobre Deus e estamos a ponto de fabricar um qualquer Júpter".

Preciso dizer-lhe, José, que não precisa ter receio de abandonar esse modelo teológico de compreensão da divindade. Não, não tenha medo! Você pode estar próximo de abandonar um modelo, mas você jamais vai se afastar de Deus. Pelo contrário, depois que assisti ao filme Baraka, meu coração se sensibilizou. Fui desafiado a olhar para a vida com outros parâmetros. Senti no espírito o dever de caminhar por uma senda pouco trilhada, mas que me possibilitará a chance de crescer. Acredito que Deus não deixa que os puros de coração embarquem em canoas furadas. O Espírito há de nos dirigir a novos patamares de relacionamento com o Senhor.

Ao conhecer um Deus que chora, pois a dor do mundo dói nele, nos aproximamos de Jesus. Damos as costas à divindade alheada da vida para entendermos a afirmação bíblica: Deus é amor. Pe. Varrilon precisaria ser mais conhecido, sua percepção sobre o amor de Deus é riquíssima.

Se Deus interviesse para impedir o homem de sofrer, talvez nós pudéssemos dizer, numa primeira análise, que Ele nos ama ao impedir-nos de sofrer. Mas se formos ao fundo das coisas, reconhecemos que isso seria um ato infantil, não seria sério. O que está no centro do ato criador, é o absoluto respeito por uma criatura que deve criar-se a ela mesma, e que não pode fazê-lo sem o risco do sofrimento, independente de pecado que, sem dúvida, vem complicar as coisas. Atrevo-me a considerar em Deus dois níveis de amor. É uma maneira de falar, evidentemente. Um nível inferior, em que Deus intervém para impedir o homem de sofrer. E um nível superior de amor em que Ele respeita absolutamente a criatura que deve criar-se a si mesma... Se Deus intervém, quer no Evangelho, através de milagres, quer em determinadas vidas, por exemplo, através de curas, é porque Ele está presente em nossos humildes começos, ali, onde o nosso desejo é ainda carnal, onde se trata mais de necessidades do que de desejos. Mas é sempre para nos conduzir ao calvário onde não existe nenhuma intervenção. No Calvário, é o silêncio, é a ausência, é nesse momento que o amor se revela em toda a sua profundidade.

Faça um favor à sua alma, invista em seu crescimento. Compre o DVD, desligue os telefones e deixe que Deus use a mensagem do filme para tirar os pedregulhos do seu coraçao. Ah, quase esqueço, o filme Baraka não tem nenhuma narrativa; ninguém fala uma só palavra. O silêncio de Deus perante a cruz se parece com o silêncio de Deus diante das favelas, campos de concentração.

Soli Deo Gloria

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Bíblia Conservadora: Jesus não perdoa

Paulo Brabo - www.baciadasalmas.com

A Bíblia Conservadora é um projeto que tem por objetivo apresentar a palavra de Deus em inglês contemporâneo, removendo ao mesmo tempo as distorções liberais.

The Conservative Bible Project

Em agosto deste ano Andy Schlafly lançou o Projeto da Bíblia Conservadora em seu conservapedia.com,«O erro dessas passagens está em ensinar às pessoas que podem fazer o que quiserem e serão perdoadas.» sáite fundado em 2006 para corrigir o suposto viés liberal da wikipédia.

Até agora o Projeto da Bíblia Conservadora, fundado por Schlafly de seu próprio bolso, completou um terço do Novo Testamento e de Gênesis. As mudanças mais controversas são a eliminação do Novo Testamento das histórias em que Jesus perdoa a mulher adúltera e perdoa seus perseguidores na cruz.

“O erro fundamental dessas passagens está em ensinar às pessoas que podem fazer o quiserem e serão perdoadas, mesmo se não se arrependerem”, afirmou Schlafly.

Schlafly observa – corretamente – que ambas as cenas não constam dos manuscritos mais antigos. Para ele, isso comprova que nunca aconteceram.

“Os liberais amam a cena do apedrejamento porque podem usá-la contra a pena de morte”, disse Schlafly. “Mas naquela época eles não apedrejavam mulheres: eles as estrangulavam”.

Ele também culpa os acadêmicos liberais por terem feito com que as traduções bíblicas do século XX, como a Nova Versão Internacional, promovessem o socialismo, o antiamericanismo e o feminismo, minimizando o julgamento de Deus e os horrores do inferno.

Seria fácil desprezar Schlafly como um excêntrico sem credibilidade, não fosse o fato de que sua conservapedia.com acumula dezenas de milhões de visitas e está presente na lista dos 50 maiores sáites conservadores dos Estados Unidos, segundo o RightWingNews.com

Mark Barna, Conservative bible hits cyberspace

A Bíblia Conservadora obedece as seguintes diretivas:

  • Sistema de referência contra o viés liberal;
  • Não emasculada, evitando linguagem unisex e outras distorções feministas;
  • Utiliza potentes termos conservadores, atualizando palavras como “palavra”, “paz” e “milagre”;
  • Aceita a lógica do inferno, jamais negando ou minimizando a existência do inferno ou do diabo;
  • Expressa as parábolas do livre mercado, esclarecendo as numerosas parábolas econômicas em seu completo sentido de livre mercado;
  • Exclui passagens não-autênticas inseridas posteriormente: remove passagens interpoladas sobre as quais os liberais baseiam seus argumentos, como a história da mulher adúltera.

The Conservative Bible Project

A faculdade de despojar-se

Paulo Brabo

O Filho do Homem, que propunha incessantemente que não havia nada de errado em acumular riquezas, a não ser uma imaculada insensatez, gostava de pontuar que havia uma única e inequívoca vantagem em possuir: a capacidade de despojar-se. Em suas histórias todos despojam-se, e de todas as coisas: o rico comprador de pérolas, o pai do rapaz que pede a herança, o samaritano na beira da estrada, o cidadão de quem exigem a túnica, a viúva pobre diante de sua única moeda, o príncipe diante da soma imperdoável, o dono da fazenda e seu filho diante de seus agricultores.

Foi essa, obviamente, a faculdade que Jesus quis apontar ao jovem rico que cumpria desde a sua infância todos os mandamentos.

Venda tudo que você possui e dê aos pobres.

A subversão que ele propunha era de fato assombrosa. Jesus estava na verdade dizendo, abrace sua posição privilegiada e a oportunidade que apenas você tem: despoje-se. Ouse, transgrida; deleite-se e refestele-se na arrebatadora liberdade de despir-se, ainda no caminho, do que o limita e constrange o seu avanço.

Não foi, obviamente, a fé na suficiência da riqueza que impediu o jovem rico de dar o temível passo que o faria avançar; ninguém de fato acredita na suficiência da riqueza, especialmente e em primeiro lugar os ricos. O que o impediu de avançar foi sua fé, sua exorbitante fé, na suficiência dos mandamentos.

Cumprir a justiça é sempre confortável e limitante demais, pelo que o rabi de Nazaré insiste que a justiça deve ser constantemente ultrapassada (ai de vocês se a sua integridade não exceder a dos mais devotos carolas). E o que pode ultrapassar a justiça é apenas o amor, que não tem critérios (dê aos pobres) e não admite exceções (venda tudo que você tem).

Para o jovem rico, dar ouvidos a Jesus teria representado pisar descalço e sozinho e nu o terrível terreno da liberdade e da responsabilidade – o imoderado domínio que se chama reino de Deus, – mas para adentrá-lo teria sido necessário despojar-se dos mandamentos.

E isso ele não ousou fazer, porque os tinha cumprido desde a infância.

Bacia das Almas

Deus imerso no humano


Ricardo Gondim

Quem é Deus? Por que existe algo ao invés de nada? Estupefatos, contemplamos o céu estrelado, a fúria das marés e inquirimos: Por que a beleza? Diante da mente humana, buscamos entender como nasceu amor e ódio, criatividade e maldade. Onde está Deus? Podemos entender a transcendência absoluta?

A cultura semítica, de onde Jesus formulou os seus conceitos, não especulava, mas se contentava em relacionar-se com Deus como Pai. Judeu nômade, profeta ou sacerdote, não esboçava cartilha para entender a Divindade. Javé não era objeto de estudo, não participava de uma elaboração lógica, dedutiva, que procurava captar mentalmente o ser divino. Na tradição judaica, Deus era crido na dimensão existencial e poética. Eles se contentavam em narrar os atos de Deus na história, na imanência. Não havia preocupação de encaixá-lo em uma racionalidade analógica e dedutiva.

Quando o cristianismo primitivo precisou dialogar com o mundo greco-romano, os Pais da Igreja, geração que sucedeu os apóstolos, mostraram-se cuidadosos em demonstrar que a fé cristã era mais que uma seita judaica. Eles lutavam para que o cristianismo sobrevivesse em um mundo que debatia ideias. A fé, confrontada com o pensamento platônico, não deixaria nada a desejar.

Vários pressupostos filosóficos sobre a Divindade foram então absorvidos pelo cristianismo. Assim como cristianismo influenciou de forma decisiva o Ocidente, o Ocidente também o transformou. A teologia que se consolidou passou a repetir o conceito aristotélico de que a divindade é um “Motor imóvel”. Já que perfeição significava imobilidade na filosofia, Deus era concebido como tão absolutamente perfeito, que nunca poderia experimentar qualquer mudança. Caso mudasse, deixava de ser Deus. Qualquer alteração, para pior ou para melhor, significava não ter, anteriormente, a perfeição absoluta. E um Deus que não fosse perfeito não era Deus.

Quando o cristianismo se espalhou, inúmeros deuses povoavam o mundo antigo - o Panteão estava lotado deles. Ninguém franzia a testa se escutasse sobre a Encarnação. Não espantava acreditar que Deus encarnou e foi visto caminhando pelas estradas poeirentas da Palestina. A dificuldade, a loucura, era afirmar que um contador de histórias, um carpinteiro frágil, manso e amigo de gente imperfeita, era Deus e, pior, havia morrido por mãos humanas.

Isso não era só um paradoxo, mas uma insanidade: Como? Deus morrer? A morte de Jesus, não só demolia o edifício conceitual da filosofia, como se colocava como a contradição mais escandalosa. Essa mensagem correu o mundo. O Transcendente absoluto, o Deus dos deuses, podia ser melhor compreendido olhando para Jesus de Nazaré. As conjecturas gregas não colavam nele. O Filho do Homem não tangenciava Movedor imóvel de Aristóteles.

É preciso retomar a ênfase do cristianismo primitivo. Jesus não se parece com Deus como “Ato Puro”. Em Cristo, Deus não é apático e não está preso pela camisa de força da metafísica. A Divindade se fez gente e mostrou-se comovida de “viscerais afetos” por uma viúva a caminho de enterrar o filho. Chorou diante da sepultura de um amigo (Ah, como a dor humana dói em Deus! – “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado” – Isaías 63.9). Irritou-se com a opressão religiosa. Entendeu, e acolheu, as lágrimas de uma prostituta.

Realmente Jesus não se parecia com o que fora dito sobre Deus. A pregação cristã nasceu em cultura distinta da helênica. O Reino que Jesus anunciou não encontrava paralelo na cultura, nos mitos, nas tragédias. O Deus de Jesus estava além do alcance de poderosos e sábios; mas podia ser intuído por puros de coração, crianças e marginalizados. Para detectar réstias do mundo espiritual, era preciso ouvir o inaudível, ver o imperceptível, tocar no intangível. Grãos de mostarda, ovelhas indefesas, gente inoperante, escravos inúteis, pecadores indignos, filhos pródigos, prostitutas, leprosos, cegos, mendigos, exorcistas informais, lírios e pardais, compunham o mosaico que revela Deus.

Jesus não se fantasiou, não encarnou por um breve período, mas assumiu a contingência humana com todas as consequências, inclusive a de morrer. Exageradamente humano, libertou homens e mulheres da exigência de se tornarem deuses - A plenitude da Divindade habitou em Jesus de Nazaré. Deus mostrou-se imerso no humano. Não era preciso procurá-lo na trans-história, no sobrenatural, mas na vida. “O Reino de Deus chegou!” Jesus foi a revelação mais próxima que jamais teremos de Deus, que escolheu vulnerabilizar-se em seu amor.

Outras divindades podem ser descartadas como ídolos.

Soli Deo Gloria

domingo, 29 de novembro de 2009

Nenhum motivo e nenhuma recompensa

Ainda Wells, sobre Jesus:

E não era meramente uma revolução moral e social que Jesus proclamava: fica claro por um grande número de indicações que seu ensino tinha uma inclinação política muito manifesta. É verdade que ele disse que seu reino não era deste mundo, e situava-se no coração dos homens e não sobre um trono; porém fica igualmente claro que em todo o lugar e na medida em que seu reino se estabelecesse no coração dos homens, o mundo exterior seria naquela mesma medida revolucionado e renovado.

O que quer que a cegueira e a surdez dos seus ouvintes tenham deixado de captar das suas palavras, é muito evidente que não deixaram de captar sua firme resolução de revolucionar o mundo. Todo o método da oposição levantada contra ele, bem como as circunstâncias de seu julgamento e execução, demonstram claramente que para seus contemporâneos ele parecia estar propondo sem rodeios, e de fato propôs sem rodeios, alterar e fundir e alargar toda a vida humana.

Em vista das coisas que Jesus disse claramente, será de espantar que todos que eram ricos e prósperos tenham intuído um horror de coisas insólitas, o naufrágio iminente de seu mundo diante do seu ensino? Ele estava arrastando todas as pequenas reservas que eles haviam levantado contra o serviço social e trazendo-as para fora, para luz de uma vida religiosa universal. Ele era como um terrível caçador moral que forçava a humanidade para fora das cômodas tocas nas quais tinham vivido até aquele momento. No esplendor branco do reino dele não deveria haver propriedade alguma, privilégio algum, nenhum orgulho e nenhuma preferência; nenhum motivo e nenhuma recompensa que não fosse o amor. Será de espantar que os homens se tenham ofuscado e cegado e clamado contra ele? Mesmo seus discípulos clamavam em protesto quando ele não os poupava da luz. Será de espantar que os sacerdotes tenham percebido que entre este homem e eles mesmos não havia outra escolha, senão que ele ou o sacerdócio teriam de perecer? Será de espantar que os soldados romanos, confrontados e estupefatos diante de algo que se alçava muito além da sua compreensão e ameaçava todas as suas disciplinas, tenham buscado refúgio na risada selvagem, tenham-no coroado de espinhos e vestido de púrpura e feito dele uma versão de César da qual pudessem caçoar? Pois levá-lo a sério era adentrar uma vida estranha e intimidadora; era abandonar hábitos, controlar instintos e impulsos, era ensaiar uma incrível felicidade.

H. G. Wells, Breve História do Mundo (1922)

Dica: Paulo Brabo (Bacia das Almas)

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