sexta-feira, 20 de abril de 2012

Como cobrir o Dia do Índio para a TV

Blog do Sakamoto

Cena de fazenda ocupada por indígenas no Sul da Bahia. Take em uma latinha de cerveja aberta e indígenas rindo de algo. Locução do repórter cobrindo as imagens: “Eles estão festejando a invasão de trocentos mil hectares de terra. Terra que, até então, era produtiva”.

Close em um deles, no que fala errado [desfocar as crianças indígenas com cara de pobres ao fundo]. Foco na falta de dentes do entrevistado. Se estiverem sujos, melhor: “Estamos esperando o governo nos atender, né?” [Edita e joga fora a parte do "Os pais dos pais dos meus pais costumavam viver nessa terra. Hoje, minha família vive de favor em outro terreno com outras famílias, né? Muita gente, não cabe, não dá para plantar, né?"]

Passagem para o laboratório da empresa dona da fazenda. Close na lágrima da cientista que perdeu parte da pesquisa com a ocupação na plantação dos eucaliptos: “Isso era a minha vida”. Se possível, subir som, resgatando versão do Milton Nascimento de “Coração de Estudante” que foi cantada no funeral de Tancredo Neves.

Tirar a entrevista com a liderança que fala bonito ["Na verdade, a tribo indígena 
pede há 30 anos que os títulos sobre a área, uma reserva já demarcada em
 1937, sejam anulados. Não estamos pedindo nova demarcação, apenas que se cumpra o que já foi decidido no passado"]. Não vai parecer que é índio, vai parecer que é político. E tirar fora aquelas imagens de crianças indígenas passando fome, refestelando-se com jaca velha. Nosso telespectador não quer ver isso enquanto está jantando.

Passagem para a prefeitura do município. Prefeito: “O medo é grande nas cidades por causa da ação dos nativos.” Locução do repórter: “E o prefeito denuncia.” Close no prefeito: “As ONGs internacionais e o MST é que arregimentaram todo esse povo nas favelas de Salvador para levar nossas terras. Eles não são nem índios. Eles parecem índios para você?”

Entra um “povo fala”. Botar a idosa senhora ["Tenho medo de vandalismo"], o comerciante ["Eles são contra o progresso, não querem ver geração de empregos"], o policial ["Normalmente, há muitas reclamações de alcoolismo com eles"] e o estudante com cara de hippie ["Mas os índios têm direito a essas terras por serem delas autóctones"].

Corta para o repórter na entrada da fazenda. Diz que a paralisação das atividades de produção de madeira na última semana fizeram o Brasil perder R$ 872 milhões em exportações [usar dados da associação de indústrias de celulose]. Repórter completa: “E, entre os invasores, há procurados pela polícia, como o cacique Escambau, foragido há anos”.

Volta para o estúdio, onde o apresentador faz cara de indignação, balançando a cabeça, antes de abrir um sorriso e chamar a matéria do Dia do Índio, em que crianças de uma escola de classe média alta de São Paulo receberam a visita de indígenas do extremo Sul do município. Matéria abre com imagens de jovens índios, no pátio da escola, trajados da forma como se espera deles, dançando, dançando, dançando…

Não é assim de jeito nenhum.

Mas, na verdade, é assim também.

Feliz Dia do Índio.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Deus e o humano

A singularidade do cristianismo consiste em não separar, nem justapor, Deus e o ser humano. Mas uni-los de tal forma que, ao falar do ser humano, falamos de Deus e, ao falar de Deus falamos do ser humano.

Leonardo Boff

jovem médico larga tudo para cuidar dos viciados na Cracolândia


O que Deus pergunta
 
Julgou a causa do aflito e do necessitado; por isso, tudo lhe ia bem. Porventura, não é isso conhecer-me? – diz o Senhor.
Jeremias 22:16
Dica: A Bacia das Almas

quarta-feira, 18 de abril de 2012

demais para nós

Fonte: A Bacia das Almas

Especula-se às vezes se a experiência do mistério e da transcendência está mais disponível para os que submeteram-se a alguma espécie de treinamento religioso ou espiritual, para os quais tudo [na experiência religiosa] já foi completamente catalogado e recebeu um nome. Ela pode estar menos disponível para esses precisamente porque têm tudo já nomeado no seu caderninho. Um modo de privar-se de uma experiência é aguardá-la com ansiedade. Outra é dar a ela um nome antes de experimentá-la. Carl Jung dizia que uma das funções da religião é proteger-nos da experiência religiosa. Isso porque na religião formal tudo já está concretizado e formulado. Porém, por natureza, trata-se de uma experiência que apenas você pode ter. Assim que a classifica junto com a de qualquer outra pessoa ela perde seu caráter. Um conjunto preconcebido de conceitos arrebata a experiência, interrompendo-a de modo a que não venha diretamente até nós. Religiões rebuscadas e detalhadas protegem-nos de uma explosiva experiência mística que poderia mostrar-se demais para nós.

Joseph Campbell, Thou Art That


terça-feira, 17 de abril de 2012

Os outros

Fonte: A Bacia das Almas

Joseph Cambpell, notável mapeador de mitos e discípulo de Jung, divide as religiões do mundo em dois grandes grupos, oriental e ocidental – sendo que o primeiro grupo inclui os países entre a fronteira leste do Irã e o Pacífico, o segundo todo o resto (inclusive o Oriente Médio). Essa divisão corresponde, até certo ponto, a minha divisão entre ritos circulares e religiões lineares, que resolvi estabelecer pela relação das religiões com a história.

Campbell, no entanto, prefere definir a distinção da seguinte forma: no Ocidente, Deus e o universo (o mundo, a realidade, a natureza) são coisas distintas; no Oriente, Deus e universo são indistinguíveis um do outro.

Nas religiões ocidentais, ele observa, “Deus fez o mundo, e Deus e o mundo não são a mesma coisa. Há uma distinção ontológica e essencial em nossa tradição entre criador e criatura. Isso gera uma psicologia e uma estrutura religiosa totalmente diferentes daquelas das religiões em que essa distinção não é feita”.

É uma observação arguta. As mentalidades oriental e ocidental não poderiam ser, neste sentido, mais distintas.

Identidade e relacionamento

O alvo primário das religiões orientais é despertar no homem um senso de identidade imediata com a divindade; fazer o cultuante descobrir, aturdido, que ele é parte de Deus – é, de fato, Deus – pela suficiente razão de ser parte do universo. Como Deus e universo são indistinguíveis um do outro, não teria como ser diferente.

Para as religiões ocidentais, por outro lado, existe uma tremenda distância entre Deus e o universo sua criação. Embora o homem em particular tenha sido feito “à imagem e semelhança de Deus”, uma identidade imediata com ele (“eu sou Deus”) é tida em geral como inconcebível e criminosa. Como alternativa, o adorador é convidado a estabelecer um relacionamento satisfatório com a divindade, o que é obtido tipicamente pela submissão do adorador a um conjunto de regras que crê-se delimitam a vontade divina para a conduta humana.

Identidade com Deus ou um relacionamento com ele, é a precisa distância entre a religião do oriente e a do ocidente.

A distância até Deus: você e o outro

As religiões monoteístas ocidentais (atenção à chamada: zoroastrismo, judaísmo, cristianismo, islamismo) são relativamente recentes na história e nasceram todas no Oriente Médio (razão pela qual, historicamente, a região é ao mesmo tempo o eixo que une e a espada que divide o ocidente).

Há quatro mil anos, como já vimos mais de uma vez, a idéia de um Deus que fosse inteiramente outro e ao mesmo tempo desejasse um relacionamento com os seres humanos, embora nos pareça hoje um tanto démodé, era tremendamente avant-garde.

Conforme sugere Campbell, esse novo conceito de Deus – distanciado e distinto mas ao mesmo tempo interessado em imitação e contato – gerou uma psicologia totalmente nova. Com o andar da carruagem, acabou gerando a cabeça ocidental – com espaço para responsabilidade pessoal, reflexão, culpa e obsessão com resultados.

Ainda mais importante, Deus tornou-se um espelho e um emblema efetivo para o Outro. Enquanto nas religiões orientais o enigma do Outro é respondido imediatamente pela resposta da identidade, no ocidente a máscara do Outro foi vestida por Deus. Ele é alguém com quem podemos nos degladiar e a quem devemos prestar contas; é alguém que podemos escolher ignorar, amar ou repudiar; é o personagem, em suma, que guarda o tremendo e inconcebível mistério de não ser nós mesmos.

Em muitos sentidos, portanto, o relacionamento do homem com Deus (o Outro por excelência) é nessa visão estabelecido e mantido pelo nosso modo relacionamento com os outros (de quem Deus é emblema). Veja-se, por exemplo, mandamentos como “não matarás” e as leis da Bíblia Hebraica projetadas para proteger os estrangeiros.

Apenas nas religiões ocidentais, portanto, vem à tona a necessidade de salvação, desconhecida no oriente e entendida aqui como reconciliação necessária com o Outro.

Nascimento e morte da instituição: a plenitude dos tempos

O problema essencial com as religiões ocidentais, acredita Joseph Campbell, é que nelas o modo encontrado para estabelecer-se um relacionamento com Deus é mediado fatalmente por uma instituição.O sujeito não tem como relacionar-se com Deus diretamente; alguma instituição ou contrato social (quer seja a sinagoga, a igreja, a mesquita, os mandamentos, o confessionário ou a oração voltada para Meca) age como intermediário, interpondo-se incessamente entre o homem e Deus.

Essa distância adicional (que naturalmente inexiste nas religiões orientais) gera o que Campbell chama de “dissociação mítica”, em que o sujeito acaba sentindo-se ainda mais dissociado da experiência do Deus transcendental do que estaria sem a instituição que existe oficialmente para ligá-lo a ele.

Todos os profetas e messias tomaram sobre si a sobrehumana tarefa de resolver essa dissociação, mas nenhum como Jesus – que no momento que o Apóstolo chama de “a plenitude dos tempos” pisou a terra fazendo três coisas: primeiro, deixou muito claro que o tempo de relacionar-se com Deus através de instituições, se é que existira, tinha chegado a um sonoro fim (“Podes crer-me que a hora vem quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. A hora vem, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”). Assim entenderam-no, como demolindo a religião institucional, todos os escritores do Novo Testamento, do que dão testemunho a decisão do concílio de Jerusalém (registrada no livro de Atos), a longa explanação que é o livro de Hebreus e todas as fúrias de Paulo.

O modo de relacionar-se com Deus inaugurado por Jesus é, subversivamente, intermediado não por uma instituição mas por uma pessoa – e essa é a segunda desconstrução que ele vem fazer. Jesus, homem, veste deliberadamente a máscara do Outro e a máscara de Deus; como resultado, ele convida a que nos relacionemos com Deusexclusivamente pelo modo como nos relacionamos com o outro, com o semelhante, com o próximo – isto é, com ele mesmo: “o reino de Deus está próximo”.

Para Jesus, tudo que existe é você e Deus; os outros são máscaras temporárias da divindade: “sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Para as religiões orientais, todos somos Deus; para o Filho do Homem, Deus são os outros.

Finalmente, Jesus fornece uma inusitada ponte com o pensamento oriental, em que não nega a sua identidade com Deus (“eu e o Pai somos um”) e convida-nos incessantemente a nos tornarmos como ele “filhos de Deus” – hebraísmo que pode significar, entre outras coisas, “discípulos de Deus”, “semelhantes a Deus”, “imitadores dignos de Deus”. Na boca de Jesus a injunção de Deus na Bíblia hebraica, “sejam santos como eu sou santo”, ganha uma dimensão literal. Jesus realmente quer que sejamos como Deus, e no que Deus tem de mais peculiar: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”. Ser Deus, sustenta essa visão, define-se não por ninharias como onipotência, mas pelo modo cavalheiresco como Deus relaciona-se com os outros. Porque “Deus é amor”, como está dito em outro lugar, e com ele devemos também – tremenda ousadia, do ponto de vista ocidental – ser um.

Naturalmente que Jesus não foi ouvido em nenhum dos sentidos acima; tanto o cristianismo quanto o islamismo, que vieram depois, não abriram mão da armadilha fácil da instituição e recusaram-se a definir a identidade e a intimidade com Deus pelo tratamento generoso com o próximo.

A plenitude dos tempos, que é também a ponte entre o pensamento religioso ocidental e oriental, permanece longe de ser atravessada. O reino de Deus continua próximo.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

...

Fonte: G1

Uma fotografia tirada por Massoud Hossaini de uma menina afegã de pé em meio a uma pilha de corpos capturou a imagem da devastação deixada imediatamente após um ataque suicida contra um santuário xiita em Cabul, no Afeganistão, na semana passada.

O fotógrafo da AFP, de 30 anos de idade, estava a alguns metros de distância quando a bomba explodiu na última terça-feira (6), deixando ao menos 70 mortos. A imagem da menina Tarana, de 12 anos, gritando em meio aos corpos ofereceu uma visão clara da devastação, e foi capa dos jornais americanos "The New York Times", "The Washington Post" e "The Wall Street Journal".

Tarana Akbari perdeu sete familiares no atentado, incluindo um irmão de 7 anos (Foto: Shah Marai/AFP)Tarana Akbari perdeu sete familiares no atentado,
incluindo um irmão de 7 anos (Foto: Shah Marai/AFP)

Hossaini descreveu o que aconteceu e o que significa ser um fotógrafo afegão trabalhando em seu país destruído pela guerra. Lei o relato abaixo.

"Eu estava checando a minha câmera quando de repente houve uma explosão enorme. Por um momento não tive consciência de nada, só senti a onda da explosão e a dor em meu corpo. Joguei-me no chão.

Vi um monte de gente correndo no sentido oposto à fumaça. Sentei-me e vi que minha mão estava sangrando, mas não sentia dor.

É meu trabalho saber o que está acontecendo, então corri na direção oposta de toda a gente.

Quando a fumaça baixou, vi que eu estava de pé no meio de um círculo de cadáveres, amontoados, um em cima do outro. Eu estava exatamente no lugar em que o suicida esteve.

Fiquei em estado choque. Não sabia o que fazer. Então comecei a clicar. Sabia que estava chorando. Foi muito estranho chorar, nunca tinha reagido daquela forma, antes.

Quando a fumaça baixou, vi que eu estava de pé no meio de um círculo de cadáveres, amontoados, um em cima do outro. Eu estava exatamente no lugar em que o suicida esteve."
Massoud Hossaini, fotógrafo

Não ajudei ninguém, porque não pude, estava realmente em choque. Sabia que precisava cobrir aquele horror, registrar tudo, toda a dor, as pessoas correndo, chorando, batendo no peito e gritando: 'morte à Al-Qaeda, morte ao Talibã!'.

Virei-me para a direita e vi a menina. Quando Tarana se deu conta do que tinha acontecido a seu irmão, primos, tios, mãe, avó, todas as pessoas ao redor dela, começou a gritar.

Nas minhas fotos, ela estava apenas gritando. Essa reação de choque era tudo o que eu queria captar.

(Nesse momento, chegou um grupo de jovens que começou a atacar os jornalistas no local do atentado.)

Eles me tiraram do local, mas de alguma forma eu consegui voltar e só me lembro quando as pessoas estavam carregando os corpos e eu tentei capturar aquele momento.

Eu queria apenas refletir a dor real de todos ali, para qualquer pessoa que visse minhas fotos. Não importava se afegãos, americanos, muçulmanos, cristãos, ou outros quaisquer. Só queria que soubessem o que meu povo estava sentindo."

Senti 100% tudo. Estive no local antes, durante e depois [do atentado], e fiquei ferido. Foi uma experiência importante.

Na primeira e segunda noite, tive dificuldade para dormir. Sempre que fechava os olhos, lembrava da cena, me perguntando o que mais eu poderia ter feito por aquelas pessoas, por que não ajudei ninguém?

No terceiro dia, todas essas emoções na minha cabeça acabaram porque eu descobri que a foto tinha sido publicada em todo lugar. Vi que tinha feito uma grande cobertura que tinha tido efeito importante. Graças a Deus eu estava lá e consegui tirar uma foto e enviá-la o mais rápido que consegui."

Imagem forte (Foto: imagem forte)
A menina, de 12 anos, grita em meio aos corpos de vítimas do ataque (Foto: Massoud Hossaini/AFP)


domingo, 15 de abril de 2012

O papa e o marxismo



Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital

O papa Bento XVI tem razão: o marxismo não é mais útil. Sim, o marxismo conforme muitos na Igreja Católica o entendem: uma ideologia ateísta, que justificou os crimes de Stalin e as barbaridades da revolução cultural chinesa. Aceitar que o marxismo conforme a ótica de Ratzinger é o mesmo marxismo conforme a ótica de Marx seria como identificar catolicismo com Inquisição. Poder-se-ia dizer hoje: o catolicismo não é mais útil. Porque já não se justifica enviar mulheres tidas como bruxas à fogueira nem torturar suspeitos de heresia. Ora, felizmente o catolicismo não pode ser identificado com a Inquisição, nem com a pedofilia de padres e bispos.

Do mesmo modo, o marxismo não se confunde com os marxistas que o utilizaram para disseminar o medo, o terror, e sufocar a liberdade religiosa. Há que voltar a Marx para saber o que é marxismo; assim como há que retornar aos Evangelhos e a Jesus para saber o que é cristianismo, e a Francisco de Assis para saber o que é catolicismo.

Ao longo da história, em nome das mais belas palavras foram cometidos os mais horrendos crimes. Em nome da democracia, os EUA se apoderaram de Porto Rico e da base cubana de Guantánamo. Em nome do progresso, países da Europa Ocidental colonizaram povos africanos e deixaram ali um rastro de miséria. Em nome da liberdade, a rainha Vitória, do Reino Unido, promoveu na China a devastadora Guerra do Ópio. Em nome da paz, a Casa Branca cometeu o mais ousado e genocida ato terrorista de toda a história: as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki. Em nome da liberdade, os EUA implantaram, em quase toda a América Latina, ditaduras sanguinárias ao longo de três décadas (1960-1980).

O marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se compreender a atual crise do capitalismo. O capitalismo, sim, já não é útil, pois promoveu a mais acentuada desigualdade social entre a população do mundo; apoderou-se de riquezas naturais de outros povos; desenvolveu sua face imperialista e monopolista; centrou o equilíbrio do mundo em arsenais nucleares; e disseminou a ideologia neoliberal, que reduz o ser humano a mero consumista submisso aos encantos da mercadoria.

Hoje, o capitalismo é hegemônico no mundo. E de 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecem fome crônica. O capitalismo fracassou para 2/3 da humanidade que não têm acesso a uma vida digna. Onde o cristianismo e o marxismo falam em solidariedade, o capitalismo introduziu a competição; onde falam em cooperação, ele introduziu a concorrência; onde falam em respeito à soberania dos povos, ele introduziu a globocolonização.

A religião não é um método de análise da realidade. O marxismo não é uma religião. A luz que a fé projeta sobre a realidade é, queira ou não o Vaticano, sempre mediatizada por uma ideologia. A ideologia neoliberal, que identifica capitalismo e democracia, hoje impera na consciência de muitos cristãos e os impede de perceber que o capitalismo é intrinsecamente perverso. A Igreja Católica, muitas vezes, é conivente com o capitalismo porque este a cobre de privilégios e lhe franqueia uma liberdade que é negada, pela pobreza, a milhões de seres humanos.

Ora, já está provado que o capitalismo não assegura um futuro digno para a humanidade. Bento XVI o admitiu ao afirmar que devemos buscar novos modelos. O marxismo, ao analisar as contradições e insuficiências do capitalismo, nos abre uma porta de esperança a uma sociedade que os católicos, na celebração eucarística, caracterizam como o mundo em que todos haverão de "partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano". A isso Marx chamou de socialismo.

O arcebispo católico de Munique, Reinhard Marx lançou, em 2011, um livro intitulado O Capital – um legado a favor da humanidade. A capa contém as mesmas cores e fontes gráficas da primeira edição de O Capital, de Karl Marx, publicada em Hamburgo, em 1867."Marx não está morto e é preciso levá-lo a sério", disse o prelado por ocasião do lançamento da obra. "Há que se confrontar com a obra de Karl Marx, que nos ajuda a entender as teorias da acumulação capitalista e o mercantilismo. Isso não significa deixar-se atrair pelas aberrações e atrocidades cometidas em seu nome no século 20".

O autor do novo O Capital, nomeado cardeal por Bento XVI em novembro de 2010, qualifica de "sociais-éticos" os princípios defendidos em seu livro, critica o capitalismo neoliberal, qualifica a especulação de "selvagem" e "pecado", e advoga que a economia precisa ser redesenhada segundo normas éticas de uma nova ordem econômica e política."As regras do jogo devem ter qualidade ética. Nesse sentido, a doutrina social da Igreja é crítica frente ao capitalismo", afirma o arcebispo.

O livro se inicia com uma carta de Reinhard Marx a Karl Marx, a quem chama de "querido homônimo", falecido em 1883. Roga-lhe reconhecer agora seu equívoco quanto à inexistência de Deus. O que sugere, nas entrelinhas, que o autor do Manifesto Comunista se encontra entre os que, do outro lado da vida, desfrutam da visão beatífica de Deus.



sábado, 14 de abril de 2012

O amor e a dor por um futuro que não virá

Fonte: Adital


Jung Mo Sung
Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo.
Adital

O que acaricia uma mulher recém-grávida quando passa as mãos sobre a sua barriga que ainda nem começou mostrar sinais? Na sua imaginação, é o seu neném que ela acaricia; mas se olharmos friamente, esse embrião ou feto ainda não desenvolveu órgãos e o sistema nervoso para que pudesse ser chamado de neném. No fundo, a futura mãe acaricia o futuro que deseja. Ela sabe que carrega dentro de si o seu filho ou sua filha, mesmo que ainda não é, porque a realidade não é feita somente do que é no ato, no momento, mas também aquilo que pode ser, a promessa que o presente carrega dentro de si. Aristóteles já nos ensinou que o que chamamos de real está composto do que é em ato e a potência, aquilo que pode ser.

O amor ao futuro que pode ser e que é desejado alimenta nossa esperança. Essa capacidade de ver o que ainda não existe, de viver a vida como se o futuro deseja já estivesse presente mesmo que de modo invisível, tem a ver com a fé. Essa articulação entre o que existe e a promessa do que pode ser melhor é uma característica do modo humano de conhecer e viver.

Em tudo na vida, desde a gravidez até lutas sociais e políticas revolucionárias, passando por situações cotidianas como sair de casa para ir a cinema, vivemos essa "mistura entre o presente e o futuro e, portanto, também o passado.

O debate em torno da permissão ou não da interrupção da gravidez de um feto anencefálico tem muito a ver com essa perspectiva do futuro. O STF decidiu que um feto sem cérebro, por não ter possibilidade de viver após o parto, não é uma vida humana e, portanto, a interrupção da gravidez não se caracteriza como aborto. O que estava legalmente em discussão não era o aborto, mas se fetos com essa anormalidade são ou não portadores de vida humana, isto é, se tem possibilidade de se tornarem ou se realizarem o seu potencial de ser humanos.

As mães que decidem levar esse tipo de gravidez adiante, provavelmente, fazem isso por amor ao que poderia ter sido! Desejam viver com amor, no presente, o futuro que não poderá acontecer. Mesmo que isso seja por curto tempo e carregado de dor e angústia por saber antecipadamente do final triste. As mães que preferem interromper, provavelmente, fazem isso por sentir que a dor da interrupção do futuro desejado é demasiada para suportar. Preferem interromper a gestação porque o futuro que se encaminha é tão triste e doloroso que o presente se torna insuportável. Não interrompem a gravidez porque rejeitam a criança, mas porque não suportam no presente a dor prevista no futuro próximo.

Como podemos julgar essas mulheres sem passar na pele essa situação tão dramática? Se não nos colocamos no lugar das pessoas que sofrem, nossos juízos pretensamente éticos, baseados em valores pretensamente eternos, não passam de juízos moralistas. Isso vale para todos os casos em que há muita dor envolvida, casos em que nenhuma resposta dá conta de modo definitivo.

[Aautor, com H. Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres. Twitter: @jungmosung].

Related Posts with Thumbnails