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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Os Benefícios da Guerra

Ricardo Gondim Rodrigues

A guerra não é totalmente ruim. Ela contribui em algumas áreas. Depois da II Guerra Mundial, por exemplo, tínhamos a penicilina, a propulsão a jato e outros benefícios científicos. A guerra também ajuda em nossos conhecimentos de geografia. Agora sabemos onde ficam as cidades de Basra, Kirkuk e Umm Qasar. Essa recente guerra tem me ajudado muito porque me fez compreender algumas dimensões da vida que me passavam desapercebidas.

Depois de tantas mortes eu compreendo.

Porque Albert Camus escreveu sobre a alienação humana e, indignado com a banalização da vida, mostrou-se tão niilista; porque Sartre via o próximo como a causa de sua náusea. Agora entendo o suicídio de Ernest Hemingway. Ele identificou nas touradas espanholas o sinistro desejo humano de fazer da morte um espetáculo, de reduzir o adversário à humilhação máxima e de tornar o ritual de execução tão previsível que a platéia sente o gosto da morte antes que chegue. Os três testemunharam as atrocidades da guerra de Franco, contemplaram as trincheiras transbordando de sangue de uma guerra mundial. Perceberam que somos os lobos de nós mesmos.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque Pablo Picasso pintou a sua Guernica. Aqueles corpos torcidos, desfigurados e feios não faziam tanto sentido para mim. Agora entendo porque faziam sentido para ele que respirou o ar mórbido de sua Espanha ferida. Picasso contemplou o inferno com um olhar de artista e o retratou com uma dor humana.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque os jovens da década de sessenta rejeitaram os valores ocidentais. Sei agora porque os filhos daquela primeira metade do século XX não toleravam o cristianismo dos seus pais. Aquele cristianismo que não conseguia se concretizar em doçura e se contentava com rituais vazios. A fé com uma visão colonialista e hipócrita. Eles lembravam que duas bombas atômicas dizimaram centenas de milhares de civis. Perceberam que o discurso miúdo de amor e compaixão não se viabilizava no macro. Esse mundo não lhes servia. Desejavam paz e amor.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque é preciso manter uma atitude crítica quanto à imprensa e saber discernir a manipulação da máquina de propaganda. Agora entendo como o povo alemão foi seduzido e chegou a acreditar que os judeus eram vermes que necessitavam ser riscados da humanidade. Entendo porque a grande maioria dos cristãos alemães se encantou com a eficiência administrativa, econômica e militar do nazismo e se calou quando deveria exercer o seu mandato profético.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque Elie Wiesel afirmou que viu Deus no rosto de um menino enforcado pelos nazistas. As atrocidades que ele testemunhou não se encaixavam com a mensagem que herdara de seus antepassados judeus. Wiesel não aceitava que um Deus onipotente contemplasse passivamente a morte de milhões de inocentes. Agora entendo porque tantos judeus abandonaram a sua fé.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque Jimmy Carter governou com tanta dificuldade em Washington. Agora entendo porque ele só floresceu em sua humanidade quando se tornou ex-presidente. A máquina e os interesses militaristas são desumanos demais para quem deseja viver o espírito da bem-aventurança: Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque Francis Schaeffer propunha que a igreja deveria ser co-beligerante e fazer parcerias com outros segmentos que defendessem pontualmente os valores do Reino de Deus. Agora compreendo que é possível concordar até com Paulo Coelho, quando ironicamente agradece ao presidente George W. Bush pelo que faz pela humanidade: “Agora que os tambores da guerra parecem soar de maneira irreversível, quero fazer minhas as palavras de um antigo rei europeu a um invasor: ‘Que sua manhã seja linda, que o sol brilhe nas armaduras de seus soldados, porque durante a tarde eu o derrotarei’. Obrigado por permitir a todos nós, um exército de anônimos que passeiam pelas ruas tentando parar um processo já em marcha, tomarmos conhecimento do que é a sensação de impotência, aprendermos a lidar com ela e a transformá-la. Portanto, aproveite sua manhã e o que ela ainda pode trazer de glória. Obrigado porque não nos escutastes e não nos levaste a sério. Pois saiba que nós o escutamos e não esqueceremos suas palavras. Obrigado, grande líder George W. Bush”.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque John Stott propunha que a igreja fosse uma contra-cultura. Não podemos legitimar processos políticos contaminados pelo pecado. A igreja não pode se posicionar ao lado da espada e sim das enxadas; não justifica tanques, sim os arados.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque as pedras clamam quando o povo de Deus se cala. Agora entendo o peso dos argumentos de Maurício Pessoa no “Estado de Minas Gerais” em 24 de março de 2003: “Particularmente, não compreendo porque é mais glorioso bombardear de projéteis uma cidade assediada do que assassinar alguém a machadadas. A guerra é aquele monstro que se sustenta do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as cidades, as crianças e velhos à destruição sem piedade. É a guerra aquela calamidade composta por todas as calamidades. A guerra não é um instinto mas um invento. Os animais não a conhecem e é pura instituição humana como a ciência ou a administração. Diante dela o pacifismo está perdido e se transforma em pura beatice. Tal como os assassinatos, as guerras invariavelmente não passam de ataques de loucura. Mas, afinal, o que é a guerra? A guerra consiste em fazer o impossível para que imensos pedaços de ferro penetrem na carne viva em nome da honra e glória”.

Depois de tantas mortes eu compreendo

A grandeza de Mahatma Ghandi que pregava a não-violência mesmo quando o império britânico tripudiava a miséria indiana; a nobreza de Martin Luther King Junior que não se deixou azedar pelo sistema e pela cultura que baniam os negros do convívio e da riqueza americana; a envergadura de Nelson Mandela que não insuflou ódios e sim a reconciliação em seu país adoecido por tantos anos de preconceito racial. Agora entendo porque a Bíblia afirma que “são formosos os pés daqueles que anunciam a paz”.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque a fábula do lobo e do cordeiro nunca se desatualizou. Quando o lobo determina matar o cordeiro, esgotam-se os argumentos. Agora entendo porque Jesus é descrito como o Cordeiro de Deus. O Príncipe da paz não pactua com a lógica dos lobos. Quando os seus discípulos sugeriram que fizesse cair fogo do céu sobre os Samaritanos, ele lhes repreendeu, pois aquele espírito não vinha de Deus.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque os impérios ruem e como as potências se desmoronam. Agora sei que os exércitos não garantem a perpetuidade do poder. Mesmo com toda a sua força, o reino Macedônio não subsistiu ao poder de Roma, e os bárbaros, considerados a mais reles de todas as raças, acabaram conquistando Roma. Reconheço a sabedoria do provérbio bíblico: a soberba precede a queda e o espírito altivo vem antes da destruição.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque as mil razões para um povo atacar outro ainda são insuficientes para justificar o pânico de um menino que não consegue dormir com o barulho avassalador de bombas. Agora entendo que a promessa de uma paz futura não justifica a morte daquele idoso que não conseguiu arrastar os pés para fugir do calor do míssil que explodiu a cem metros de sua casa.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque Deus se arrependeu de haver prometido a destruição de Nínive. Ele ama as pessoas e ali havia 120 mil homens que não sabiam discernir a mão esquerda da mão direita. Agora eu entendo com mais profundidade porque ele deu o seu Filho com a missão de salvar e não de condenar.

Depois de tantas mortes eu compreendo

Porque devemos orar por paz.


Soli Deo Gloria.

Um comentário:

Anônimo disse...

bravo, bravíssimo!

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