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domingo, 4 de outubro de 2009

As potestades do mal e o diálogo necessário



Jung Mo Sung *
Adital -

"O dado mais marcante do mundo moderno é o crescimento acelerado de um novo tipo de sociedade -a sociedade de consumo.

"A sociedade de consumo é um fruto da técnica e do capitalismo. Historicamente, ela apareceu no mundo ocidental quando a burguesia ascendeu ao poder político e colocou a técnica a serviço de seu próprio enriquecimento. A propriedade privada, que na sociedade pré-industrial havia servido para dar segurança às pessoas comuns, deixou de cumprir uma função social e se transformou num direito absoluto. Surgiram as grandes indústrias capitalistas. A palavra de ordem passou a ser o aumento constante de produção, ainda que boa parte dela consistia em trivialidades [...]. Toda outra atividade que não incidisse diretamente no desenvolvimento industrial seria relegada a um plano secundário. As relações trabalhistas estariam regidas fundamentalmente pelo princípio da conveniência pessoal dos proprietários da indústria, para os quais a propriedade seria um meio de enriquecimento e não um instrumento de serviço à sociedade. Os meios massivos de comunicação (especialmente o rádio e a televisão) seriam utilizados para condicionar os consumidores a um estilo de vida em que se trabalha para ganhar, se ganha para comprar e se compra para valer. Como demonstrou Jacques Ellul, ‘o estilo de vida é formado pela publicidade’. A publicidade está controlada por gente cujos interesses econômicos estão ligados a aumento de produção, e este, por sua vez, depende de um consumo que somente é possível numa sociedade na qual viver é possuir. A técnica é assim colocada a serviço do capital para impor a ideologia de consumo".

"A ideologia do consumo se impões no mundo moderno, inclusive em lugares onde a miséria domina. Os meios massivos de comunicação se encarregam de difundir, tanto nos bairros ricos como nas favelas dos grandes centros urbano, a imagem de felicidade, o homo consumens. O resultado é que o mundo inteiro vai transformando-se numa ‘aldeia global’ que encontra no consumo seu princípio de unidade".

"Por trás do materialismo que caracteriza a sociedade de consumo estão os poderes de destruição a que se refere o Novo Testamento. O apóstolo Paulo particularmente discerniu que os principados e potestades do mal estavam entrincheirados em estruturas ideológicas que oprimiam os homens [cf. Ef 6,12]."

"A vigência destes conceitos paulinos é óbvia quando se compreende o caráter idolátrico e o poder de condicionamento da sociedade de consumo. Traduzido na linguagem da sociologia moderna, o vocabulário do Apóstolo aponta para instituições e ideologias que transcendem ao indivíduo e condicionam seu pensamento e seu estilo de vida. Tanto aqueles que circunscrevem a ação dos poderes do mal ao terreno do ocultismo, da possessão demoníaca e da astrologia, como os que consideram que as referências neotestamentárias a estes poderes são uma mera casca mitológica da qual é necessário extrair a mensagem bíblica, terminam reduzindo o mal a um problema pessoal e a redenção cristã a uma experiência individual. Uma alternativa melhor é aceitar o realismo da descrição bíblica e entender a situação do homem no mundo em termos de escravidão a um mundo espiritual, do qual necessita ser liberto. [...] Em sua rebelião contra Deus, o homem é escravo dos ídolos do mundo, por meio dos quais atuam estes poderes. E os ídolos que hoje escravizam o homem são os ídolos da sociedade de consumo."

"A igreja está chamada a encarnar o Reino de Deus em meio aos reinos deste mundo. O evangelho não lhe deixa outra alternativa. A fidelidade ao evangelho tem como concomitante o conflito com o mundo. [...] O conflito é inevitável quando a igreja toma a sério o evangelho. Isto é tão verdadeiro hoje na sociedade de consumo como o foi no primeiro século".

Estas palavras parecem ser escritas hoje por algum teólogo da libertação. Mas, na verdade, foram escritas em 1976 por um teólogo batista colombiano - radicado na Argentina-, René Padilla, que pertence a um setor do cristianismo conhecido como evangelical e é um dos principais nomes da "teologia da missão integral". Eu reproduzi estas palavras (do livro Missão Integral), não somente porque são extremamente atuais, mas para mostrar que a teologia da libertação não tem e nem teve, na América Latina, o monopólio sobre a reflexão teológica comprometida com a causa dos mais pobres e com a justiça social.

Nem todos cristãos, Igrejas ou documentos eclesiásticos que lutam pela justiça social são "filiados" à teologia da libertação. O "cristianismo de libertação" é mais amplo do que a TL ou as CEBs. Eu penso que é importante lembrarmo-nos disto para reduzirmos todas as formas de cristianismo que lutam por justiça social à TL (que aparecem em muitos textos pró-TL que circulam na Internet nestes dias). Pois isto seria não reconhecer e respeitar outros grupos que lutam por uma sociedade mais humana em nome da mesma fé cristã, mas que pertencem a outras correntes teológicas e eclesiais. Sem este reconhecimento não é possível um diálogo frutífero e necessário em torno desta mesma luta.

Aliás, é estranho ver que para muitos grupos cristãos "filiados à TL" é mais fácil ou aceitável propor ecumenismo ou diálogo religioso com pessoas de outras religiões não-cristãs (budismo, candomblé, etc.) do que com setores evangelicais e pentecostais do cristianismo. Talvez seja por não conhecer textos teológicos tão sérios e comprometidos como o que citei acima.

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