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sábado, 3 de outubro de 2009

Senhor Deus dos Desgraçados



Ricardo Gondim

A cidadezinha de Muritiba aparece como um ponto de alfinete nos maiores mapas da Bahia. Pouco acontece por ali, mas num dia qualquer de 1847, nasceu Antônio Frederico de Castro Alves, considerado o maior poeta do romantismo brasileiro. Ele conseguiu com o seu Navio Negreiro colocar em poema a dor de Deus. Castro Alves chorava em versos a sorte de milhões de negros que, arrancados de sua pátria, seguiam feito bichos, para um inferno humano. Não consigo lê-lo sem que alguns de meus músculos se retesem e que minha boca seque.

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa, Musa libérrima, audaz!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! ...

Retirados os nossos freios morais e de posse de poderes absolutos, podemos nos tornar monstros de perversidade e iniqüidade. A própria religião já produziu horrores. Assim Will Durant descreveu a tortura da Inquisição Católica: “a vítima era imobilizada e depois vertiam-lhe água na garganta até quase sufocá-la; outras vezes amarravam cordas em volta dos braços e das pernas que iam sendo apertadas a ponto de cortarem a carne até o osso. Podia ser flagelado com um ou 200 açoites até “o limite de segurança”. Chegados à praça preparada para a execução, os que tinham confessado eram estrangulados, depois queimados; os recalcitrantes eram queimados vivos. As fogueiras eram alimentadas até não sobrar nada dos mortos além das cinzas, que eram espalhadas por campos e rios. O padres e os espectadores voltavam para seus altares e lares, convencidos de que se tinha feito uma oferenda propiciatória a um Deus insultado pela heresia”.

Há uma cena no filme a Lista de Schindler que causou asco. Um graduado nazista pratica tiro ao alvo em um indefeso judeu que, feito animal selvagem, corre para se salvar. Quantas atrocidades anônimas aconteceram nos últimos cinqüenta anos? Não há como se imaginar o genocídio de Ruanda. Nossas mentes não conseguem recriar cenas em que até religiosos orquestram a morte de mais de oitocentas mil pessoas em meros 45 dias. E o que dizer do extermínio do Khemer Vermelho que transformou o Camboja em um vasto cemitério a céu aberto?

Quando o meu Nordeste padece sem água, o povo olha para o céu limpo, sem qualquer prenúncio de se cumprir a promessa de que chuva cairá sobre justos e injustos. Luis Gonzaga cantou o lamento nordestino em sua monumental Asa Branca: “Quando olhei a terra ardendo, como fogueira de São João, perguntei a Deus do céu: Ai. Por que tamanha judiação?” O flagelo da miséria nordestina é vasto e inclemente. Eu já vi o enterro de anjinhos – meninos e meninas que morrem em conseqüência, muitas vezes, da fome e da injustiça social do Ceará. Sempre me senti anestesiado ao ver como meninos e meninas se acostumam prematuramente com o sofrimento. São as próprias crianças que carregam o defunto infantil numa caixa de sapatos.

Diante de tanto horror queremos evitar a realidade de que vivemos em um mundo violento, bárbaro, sanguinário e inclemente. Aliás, nem os vocábulos e nem as artes conseguem expressar o tamanho da nossa perversidade. Assim como a Guernica de Picasso não consegue retratar a maldição de uma guerra, nem Roots mostrou o quanto sofreu Kunta Kinte, o filme A Paixão de Cristo do Mel Gibson não exauriu o tamanho do sofrimento de Jesus.

Mas todos precisamos assisti-lo. Pelo bem da humanidade, A Paixão precisa ser levada a sério. Não vejo no filme a violência pela violência e acredito que o trabalho de Gibson não pode ser jogado na vala comum dos vulgares.

Jesus não apenas padece por nós, mas como nós. Em seu sofrimento está o sofrimento humano. Gibson retrata a dor particular de Maria que como muitas mães negras viram seus filhos apanhando no chicote dos fazendeiros ricos. Sobreposta às suas lágrimas está o riso de soldados que, donos de todo o poder político, surram seu filho até se cansarem. A macro política que gera o desdém do Procurador romano para com a ralé colonizada, vale mais que a sensibilidade de uma esposa que tenta chamar seu marido a um mínimo de bom senso.

Por que as pessoas não gostam de assistir as trinta e nove chicotadas do flagelo romano? Porque não querem reconhecer a tragédia humana e nem imaginar um Deus frágil e impotente. Não admitimos que em última análise somos os responsáveis por nos tornarmos predadores de nós mesmos. Ver o Filho do Homem impotente não condiz com nossas expectativas religiosas. Desejamos um Deus que prefira valer-se de seu poder para corrigir as injustiças, que se insurja contra os poderosos e que controle a sanha dos ímpios. É mais confortável esperarmos que ele se levante e vingue nossa maldade, nos isentando do mandato humano de promovermos o bem.

Ver o filme de Gibson foi uma experiência marcante para mim. Primeiro, porque me lembrou que minha salvação não foi barata. Confrontado pelo preço que o Cordeiro de Deus pagou, não quero esse “evangelho gasoso” proclamado nos “shows gospel” da pós-modernidade. Sentado confortavelmente na poltrona do cinema, recordei-me de suas palavras em Lucas 9:23-24: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, este a salvará”.

Mas lembrou-me também do sofrimento dos pobres nordestinos, dos exilados e aidéticos africanos e de tantas mães que choram seus filhos em sepulturas rasas. Quando entraram os letreiros finais do filme, levantei-me cabisbaixo e em silêncio. Perguntava-me a mim mesmo: “Até que ponto estou disposto a sofrer pela causa de Jesus Cristo?” Paulo convidou Timóteo a suportar as aflições como bom soldado da cruz, pois queria lembrar seu discípulo que para seguir o Caminho, ele necessitaria se dispor a encarnar a missão de Jesus. A pergunta ressoa teimosamente: Quantos querem partilhar a sorte dos que gritam desesperados nesse imenso mar de lágrimas que se transformou o viver humano?

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