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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Deus esvaziado



Baseado na PARÁBOLA DOS FILHOS PERDIDOS

Lucas 15.11-32


Você pode fazer teologia de cima para baixo e de baixo para cima. Caso escolha fazer de cima para baixo, terá a companhia de todos os filósofos, especialmente os gregos, que se fixaram numa idéia de perfeição de Deus, e deram toda ênfase aos atributos incomunicáveis de Deus: onipotência, onisciência e onipresença, por exemplo (Jó 42.2; Salmo 139; Isaías 43.13; Lucas 18.27). Todos os que olham para Deus através desse paradigma imaginam Deus num alto e sublime trono (Isaías 6.1), habitando em luz inacessível (1Timóteo 6.16) e, invocado mediante a oração da fé, vem ao mundo fazer coisas boas (milagres) para seus filhos. Não há nada de errado nesta descrição de Deus.

Mas você também pode fazer teologia de baixo para cima. Nesse caso, você deverá deixar de lado aquilo que Deus é em termos de sua perfeita natureza eterna, e focar sua atenção na maneira como Deus escolheu se revelar e se relacionar com as pessoas na história. Seus olhos devem deixar de lado a visão ideal e abstrata da filosofia, e se voltar para Jesus Cristo, suas ações e palavras, que revelam o Pai (João 10.30; 14.9).

A Bíblia ensina que Jesus é Deus esvaziado, Deus em forma humana, em forma de servo (Filipenses 2.5-8). Jesus é Deus conosco, isto é, Deus se revela e se relaciona conosco em Jesus (João 1.14,18; Hebreus 1.1-3). Em Jesus, Deus está esvaziado, pois sua onipotência foi limitada pela fé dos que a ele se achegavam (Mateus 13.53-58), seu onisciência foi limitada pelo Pai (Mateus 24.36), e sua onipresença foi limitada pela própria encarnação.

A expressão Deus esvaziado não diz respeito à natureza de Deus. Deus é o mesmo, tanto no alto e sublime trono como encarnado na pessoa de Jesus. Mas a maneira como Deus se relaciona no céu é diferente da maneira como se relaciona na terra. No céu Ele faz tudo quanto lhe agrada e reina soberano. Na terra Ele age em e com as pessoas que atendem seu convite para a comunhão em seu Filho: "venha o teu reino, seja feita a tua vontade assim a terra como no céu" (Salmo 115.3,16; Mateus 6.10; 1Coríntios 1.9). Isso fica mais claro quando compreendemos os critérios segundo os quais Deus escolheu se relacionar com seus filhos, conforme Jesus ensina na “parábola dos filhos perdidos” (Lucas 15.11-32).

Em primeiro lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da liberdade. O filho mais novo pede a sua parte da herança e vai embora da casa do pai. Naquela época e cultura, o pedido equivaleria a dizer mais ou menos o seguinte: “Pai, tudo o que quero é que o senhor morra. Tudo o que me interessa é seu talão de cheques”. O impressionante é que o pai não faz oposição a esse desejo do filho. O critério é a liberdade: “Você quer ir, meu filho, eu lamento, mas vou não vou amarrar você ao meu lado, não vou obrigar você a conviver comigo contra a sua vontade. Siga seu caminho”.

O Deus esvaziado não mantém relacionamentos à força, mediante manifestação do seu poder e imposição de sua autoridade soberana. O Deus esvaziado dá um passo atrás, para que você possa exercer sua liberdade de existir com Ele ou contra Ele.

Em segundo lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da interpelação. O filho mais velho se recusa a participar da festa que o pai promove para se alegrar com o retorno do filho mais novo, que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. O pai vai ao encontro do filho mais velho e o interpela, o confronta e o coloca diante da necessidade de uma decisão. Mas não decide por ele, nem o obriga a se submeter à sua vontade.

O pai não exige obediência dizendo “Enquanto você estiver na minha casa fará as coisas do meu jeito”. O pai confronta o filho e espera tocar sua consciência, para que, semelhantemente ao filho mais novo, ele também “caia em si”, e experimente uma transformação de dentro para fora, de modo que sua submissão à vontade do pai seja um ato voluntário e consciente de ser a melhor escolha.

Deus não é um solucionador de problemas. É um solucionador de pessoas. Deus não prometeu fazer nossa vida melhor. Prometeu nos fazer homens e mulheres melhores: semelhantes ao seu Filho (Romanos 8.28-30; 2Coríntios 3.18; Gálatas 4.19; Efésios 4.11-13).

Quem espera uma vida melhor como resultado da intervenção do Deus onipotente, onipresente e onisciente, acaba se frustrando e sucumbindo em culpa e incredulidade. Quem espera ser uma pessoa melhor e andar em comunhão com Deus, numa relação de amor e liberdade, respondendo suas interpelações e desfrutando sua presença e doce companhia é capaz de enfrentar a vida, qualquer que seja ela.
Ed René Kivitz

Um comentário:

débora disse...

O Deus esvaziado não mantém relacionamentos à força.
Fico a pensar após a leitura do prefalado texto na experiência de um sujeito judeu benjamita que jamais procurou ter quaisquer relações com esse Deus esvaziado, pelo contrário, era um inimigo declarado do mesmo, perseguindo e assolando estupidamente a cristandade judaica do primeiro século, e, muito contra sua vontade após o episódio por ele mesmo narrado no livro dos atos dos apóstolos Cap.9, foi forçado a ser o que até aquele momento não fora durante toda sua existência, um cristão posto em disposição para ser perseguido pelo nome de um judeu que até sua forçada conversão ele odiara e perseguia. É deveras estranho esse esvaziamento que passa a ser dependente da vontade humana. Parece-me um equívoco!

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