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terça-feira, 14 de junho de 2011

Idas e vindas da virtude

Ricardo Gondim
Mal-aventurado o africano
porque a humanidade lhe ensinou a pescar
no rio do desengano. 
Desgraçado o que soube descansar
no colchão desumano
onde piolhos picam até cansar. 

Mal-aventurada a mãe que chora
no morro do Rio de Janeiro;
é ela que, em toda hora,
contempla o rés do chão traiçoeiro,
para ela não haverá desforra.
Nenhum cavalheiro
lhe fornecerá o lenço
para suavizar a face
que a lágrima acalora. 

Mal-aventurado o velho
que jaz alucinado
na suja enfermaria sem espelho;
por toda eternidade
ele se imagina aprisionado,
vendo escaravelho
no lustre empoeirado. 

Mal-aventurados os generais
que festejam seus faustos feitos;
eles sorvem um vinho pleno de ais;
sem felicidade nos coitos
sabem que suas mulheres são iguais
às meretrizes menos geniais.  

Mal-aventurados os religiosos
que das verdades fazem dardos 
e com elas proferem males rancorosos.
Eles condenam seus convertidos
a viverem como eternos medrosos. 

Bem-aventurados os que se contentam com a vida;
eles aceitam qualquer migalha divina
como bênção dividida.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de beleza;
eles caminharão como filhos de poetas,
comerão seus versos na sala da realeza
e só eles perceberão na graúna
partituras completas. 

Bem-aventurados os trapezistas
que no circo se balançam perigosamente;
eles nos tiram as vistas
pois somos pobres ilusionistas
que também nos penduramos em fitas
esperando despencar subitamente.

Bem-aventurados os maratonistas
que correm sem esperança de prêmio;
eles buscam suas metas
só pela alegria das conquistas.

Bem aventurados os impotentes;
que se sabem incapazes de amar,
só eles se enxergam carentes
e  só neles o Espírito se vai derramar.

Soli Deo Gloria

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