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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Narrativa versus teologia

QUANDO O GRANDE RABINO Israel Shem Tov via a desgraça ameaçando os judeus era seu costume ir a um certo lugar da floresta para meditar. Ali ele acendia uma fogueira, proferia uma oração especial e o milagre era realizado e o infortúnio evitado. Mais tarde quando seu discípulo, o celebrado Magid de Mezritch, teve oportunidade, pela mesma razão, de interceder ao céu, ele foi ao mesmo lugar na floresta e disse: “Senhor do universo, ouve: não sei acender uma fogueira, mas sou ainda capaz de proferir a oração”, e novamente o milagre foi realizado. Ainda mais tarde o rabino Moshe-leib de Sasov, a fim de salvar seu povo mais uma vez, foi à floresta e disse: “Não sei acender uma fogueira e não conheço a oração, mas conheço o lugar da floresta e isso deve bastar”. Bastou e o milagre foi realizado. Então recaiu sobre o rabino Israel de Rhyzin afastar o infortúnio. Sentado em sua poltrona, cabeça entre as mãos, ele disse a Deus: “Não sei acender uma fogueira, não conheço a oração e não sei achar o lugar na floresta; tudo que posso fazer é contar a história, e deve bastar”.

Bastou. Deus fez o homem porque adora histórias.

Tudo [...] parece indicar que a história de Deus e as nossas histórias são de alguma forma experiências originais. Talvez seja aqui que resida nossa “imagem e semelhança”: somos parágrafos da mesma história.

No devido tempo, no entanto, algo aconteceu em nossas histórias mútuas. Foi inevitável e de fato necessário. As pessoas, agraciadas com inteligência pelo Deus da mesma história, começaram a refletir sobre nossas histórias conjuntas. Com o tempo os homens começaram a tirar conclusões e finalmente codificaram essas conclusões em proposições, sistemas e credos. O resultado foi o que chamamos de teologia sistemática.

Deve ser depressa notado, no entanto, que essa teologia não é a coisa em si, a experiência crua de nossas histórias. É uma classificação intelectual das experiências a fim de podermos conversar a respeito delas de forma filosófica. É uma coisa boa e necessária e dá aos profissionais as categorias e vocabulário necessários para falarem entre si e nos ensinarem.

Há no entanto dois inconvenientes nesse desenvolvimento, inconvenientes que apenas recentemente estamos tentando superar. O primeiro é que essa intelectualização é feita invariavelmente dentro dos modos correntes de pensamento e está baseada nas suposições de filosofias passadas e contemporâneas – que são limitadas e condicionadas. A teologia sistemática codificada está irremediavelmente embutida num sistema específico e isso afeta suas conclusões e expressões. Em segundo lugar, todas as teologias sistemáticas, até hoje, são fechadas a outros com diferentes pressuposições e fundamentos, e são apenas uma peça do todo. Por essas duas razões as teologias sistemáticas são limitadas, ultrapassadas e parciais.

William J. Bausch, Storytelling: Imagination and Faith

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