terça-feira, 8 de novembro de 2011

As Divinas Gerações

Paulo Brabo - A Bacia das Almas
Fonte : http://www.baciadasalmas.com/2011/as-divinas-geracoes/

“Dieu d’Abraham, Dieu d’Isaac, Dieu de Jacob”
non des philosophes et des savants.
Blaise Pascal, Mémorial (1654)



De todas as lendas que sustentam os fundamentalismos cristãos, talvez nenhuma seja mais infundada – e por certo nenhuma é mais útil – do que a ideia de que há um único modo de se ler e de se entender a Bíblia, um modo de interpretação que permaneceu inalterado ao longo dos milênios e que corre nos nossos dias o risco de ser miseravelmente derrubado pelas licenciosidades interpretativas e morais dos liberais.

Reza a lenda que esse método fechado de interpretação – e usam-se para descrever sua autoridade palavras fortes como “literal” e “inerrante” – é eterno, fora do tempo e inteiramente impermeável às variações da história. Desse modo, a lenda exige que Lutero interpretou a tradição bíblica da mesma forma que Paulo, que a interpretou da mesma forma que Jesus, que a interpretou da mesma forma que Esdras, que a interpretou da mesma forma que Isaías, que a interpretou da mesma forma que Davi, que a interpretou da mesma forma que Moisés, que a interpretou da mesma forma que Abraão.

A ortodoxia não pode existir sem a lenda de uma exegese fora do tempo, porque quando diz que a Bíblia é a inerrante Palavra de Deus o fundamentalista não está dizendo apenas que o texto bíblico é eterno e imutável, mas também, e em especial, a sua interpretação. Para que a própria ideia de fundamentalismo faça sentido, a história e suas novidades devem se manter inteiramente incapazes de lançar novas luzes hermenêuticas sobre a letra da revelação. Qualquer possibilidade de interpretar-se a Bíblia a partir da nossa presente condição deve ser encarada como insidiosa tentação, pelo que a única interpretação autorizada deve necessariamente ter sido definida, sem margem de manobra, não só quando nós mesmos entramos em cena, mas desde sempre.

O fundamentalista, portanto, não é quem lê a Bíblia literalmente, mas quem não consegue enxergar qualquer diferença entre a Escritura e a sua compreensão pessoal dela. Na prática, trata-se de alguém apaixonado não pela inerrância de um texto sagrado, mas pela inerrância da sua própria interpretação. E, como não quer ter de reconhecer que sua leitura é tão seletiva e historicamente condicionada quanto qualquer outra, o fundamentalista precisa batalhar ostensivamente para que não apenas o texto, mas também sua interpretação autorizada se mantenham inalterados diante de novos contextos.

O problema com essa noção de uma interpretação bíblica que permaneceu inerrante e imutável ao longo dos séculos, inteiramente imune às influências dos fatos novos e da passagem do tempo, é que ela é espetacularmente negada não só pela história, mas pela própria narrativa bíblica.

O que impulsiona o drama da revelação na Bíblia são precisamente os modos através dos quais as novas perspectivas sociais e históricas constrangem os israelitas e seus herdeiros a retrabalhar e reinterpretar um corpo antigo e mais ou menos fixo de tradições bíblicas, de modo a encontrar nele novos significados e novos desafios à luz desconcertante do momento presente.

Nesse sentido, a Bíblia não é o registro da realidade eterna dos feitos divinos, mas a história das reformulações da imagem divina que os homens se viram forçados a fazer diante da realidade cambiante dos fatos. Não é a descrição de um Deus imutável, mas a descrição progressiva e cumulativa das feições divinas que os homens creram que o próprio Deus ia revelando a partir dos indícios da história.

É a própria Bíblia, portanto, que nos ensina que novas circunstâncias não apenas permitem, mas requerem novas interpretações de um mesmo corpo de tradições bíblicas. Os cronistas, os salmistas, os profetas, Jesus e Paulo (bem como os que foram registrando as suas histórias) – todos esses propuseram interpretações das tradições bíblicas que se distanciavam sensivelmente do ensino da ortodoxia da sua época. E, muito declaradamente, não o fizeram movidos por outra coisa que não a perspectiva privilegiada que sua posição na linha do tempo concedia a cada um. O testemunho coletivo dessas vozes intra-bíblicas é que as revoluções da história fornecem chaves de interpretação que quem deseja aproximar-se da divina herança não se pode dar ao luxo de ignorar.

Os eventos que influenciaram e alteraram a interpretação das tradições judaico-cristãs dentro do intervalo em que o cânone da Bíblia foi composto incluem, só para citar os mais importantes:

o estabelecimento em Davi e Salomão de uma monarquia unificada, dotada de um local centralizado de adoração e de um sacerdócio especializado. A ascensão da monarquia acabou abafando as ênfases anárquicas e num governo descentralizado que parecem ter prevalecido nas tradições mais antigas – como atestam, por exemplo, muitos trechos do Pentateuco e todo o livro de Juízes. Um testemunho sobrevivente da hesitação que predominava anteriormente com relação à monarquia aparece no discurso de divina advertência em 1 Samuel 8. A história de Israel até o momento da ascensão da monarquia e do sacerdócio centralizado teve de ser literalmente reescrita (isto é, reinterpretada) à luz da nova forma de governo. Para uma comparação entre tradições e interpretações por vezes abertamente antagônicas, é sempre útil contrastar os livros de Samuel e de Reis à narrativa de Crônicas.
a destruição do reino do Norte pelos assírios (em 721 a.C.) e mais tarde (em 587 a. C.) a destruição de Jerusalém e a dissolução do reino do Sul pelos babilônios, com a consequente vida nacional no exílio. As invasões dos assírios e a destruição do reino do Norte fizeram com que as antigas tradições fossem reinterpretadas como favorecendo a tribo de Judá, berço do reino sobrevivente. Porém as expectativas de um “trono eterno” para a linhagem de Davi foram demolidas juntamente com o Templo um século e meio depois. Vivendo na diáspora, os exilados de Judá viram-se obrigados a rever suas noções estabelecidas sobre misericórdia, fidelidade e soberania divinas. Longe da pátria e impedidos pela falta do Templo de continuar oferecendo os sacrifícios prescritos pela Lei, acabaram concluindo que haviam em grande parte interpretado erroneamente a letra do Pentateuco. As novas circunstâncias levaram-nos a entender que uma rígida religiosidade exterior não era o que Deus valorizava ou requeria de Israel em primeiro lugar, mas sim uma postura de misericórdia e um coração contrito. Nessa releitura das antigas tradições consiste o bojo da proclamação dos profetas.
a conquista do Oriente Médio por Alexandre, o Grande, e a resultante helenização das regiões em que viviam os judeus. Os judeus no exílio tiveram de aprender a manter a identidade nacional/religiosa diante da competição das culturas em que estavam inseridos, e foram nisso notavelmente bem sucedidos. Porém a cultura grega, que tomou conta do mundo conhecido a partir das vitórias de Alexandre, mostrou-se eloquente e cativante demais para ser evitada indefinidamente. Logo as ideias dos gregos estavam influenciando o modo como os judeus liam seus próprios textos e pesavam sua própria herança. Essa influência acabou remodelando a tradição bíblica de muitas formas. Em primeiro lugar, a Bíblia hebraica foi traduzida – isto é, reinterpretada, visto que traduzir é interpretar – para a língua grega. Quando citam a Bíblia hebraica, os autores do Novo Testamento (que escreviam em grego) fazem uso dessas versões e das interpretações que elas trazem embutidas em si. Segundo, muitos intérpretes judeus (dos quais o mais ilustre foi Fílon de Alexandria) procuraram conciliar as tradições judaicas com a filosofia grega, aplicando ao mesmo tempo os métodos de interpretação dos pensadores gregos aos seus próprios textos sagrados. Finalmente, a ênfase grega no indivíduo parece ter influenciado diretamente a composição e a teologia da terceira porção da Bíblia hebraica, em que a devoção nacional e coletiva (que prevalecia nos textos mais antigos) é substituída pela relação pessoal do adorador para com o seu Deus.
o ministério e a morte de Jesus de Nazaré. Levando a um novo extremo a herança subversiva dos profetas que o precederam, Jesus propôs uma radical reinterpretação das tradições do Antigo Testamento. Para Jesus, a vitória do Deus de Israel sobre seus competidores nada tinha dos êxitos políticos, econômicos e militares que os judeus vinham sonhando para o seu futuro. O iminente reino de Deus deveria representar uma reformulação intransigente e universal do espírito humano, uma revolução de beleza, cavalheirismo e graça que evitaria todas as armadilhas dos sistemas de poder e de manipulação que governam este mundo. Frases como “vocês ouviram o que foi dito… eu porém digo a vocês…” e “não vim anular, mas cumprir” apenas atestam que era de modo muito consciente que Jesus vinha propor a completa reformulação da posição sobre Deus, justiça, nação, valor e identidade que prevalecia na ortodoxia dos seus dias. A vida frugal, o ensino subversivo e a morte prematura de Jesus levaram os primeiros cristãos a reavaliar por completo o que pensavam que o Antigo Testamento dizia sobre a pessoa e a obra do Messias – bem como sobre todos os sonhos de Deus para a humanidade.
o ministério e os escritos do apóstolo Paulo. Paulo entendeu mais e antes do que qualquer outro que a singularidade da pessoa e da obra de Jesus representavam um convite à transformação não apenas da nação judaica, mas do mundo inteiro. Ele dedicou a vida à dupla tarefa de divulgar a boa nova império adentro e de vasculhar as tradições bíblicas em busca de confirmação para seu parecer sobre a primazia de Jesus e sobre a natureza de seu próprio ministério. Paulo foi o primeiro a ousar reinterpretar a Bíblia inteira à luz da pessoa de Jesus, e o que encontrou deixou maravilhadas gerações de leitores.
A Bíblia contém em si mesma, portanto, numerosos precedentes para a reinterpretação da natureza da revelação à luz de novas circunstâncias históricas. Como epitomado na postura de Jesus, essas novas leituras não requerem a invalidação da autoridade das antigas tradições; o que pedem é uma nova e generosa reavaliação das implicações dessas tradições para os desafios e particularidades do momento presente.

Essa variedade nas cores da exegese intra-bíblica demonstra que a própria Bíblia não ignora que é da condição humana interpretar as tradições que respeitamos de um modo que faça mais sentido dentro de nossa própria perspectiva histórica e conceitual. Seu testemunho é que não há um modo único e “literal” de se entender a significância do legado bíblico. E mais: quando feito de mente aberta e com um coração compassivo, interpretar-se as antigas tradições à luz das demandas do presente pode nos proporcionar uma visão mais clara a respeito de Deus, não uma visão deturpada ou desrespeitosa.

E que a interpretação da Bíblia não se manteve estática depois que o cânone estava concluído a história dá testemunho mais do que abundante. Alguns dos eventos que representaram gatilhos para profundas reinterpretações das tradições bíblicas:

a destruição de Jerusalém e de seu Templo, em 70 d.C., resultado da revolta dos judeus contra a ocupação romana;
a perseguição romana contra os cristãos;
o fato de que o cristianismo foi se tornando um movimento predominantemente gentio, acompanhado de um crescente rancor contra os judeus dentro do movimento;
a promulgação do cristianismo como religião legal do império romano, pela mão do imperador Constantino;
os concílios cristãos e o fechamento do cânone;
a cisão entre o cristianismo ocidental e o oriental;
a Reforma e Contra-Reforma;
a difusão do pensamento racionalista e materialista e as revoluções científica e industrial;
o Holocausto dos judeus europeus pela mão dos nazistas;
a secularização definitiva da cultura no século XX e os ventos da pós-modernidade no terceiro milênio.
A análise dessas e outras instâncias demonstra que o conceito de uma interpretação bíblica que permaneceu estática, isenta e inalterável ao longo dos milênios, até os nossos dias, é na melhor das hipóteses equivocado – e, na pior, mentiroso.

O estudo desses exemplos ajuda a provar ainda que interpretar a Bíblia a partir da nossa perspectiva histórica pode, em muitos casos, significar simplesmente interpretar a Bíblia em nosso próprio favor. Essa narrativa (que também é a nossa) demonstra que a exegese bíblica pode ser usada como ferramenta arbitrária de dominação, de divisão e de exclusão.

Restam porém os casos (como o de Jesus e o dos profetas) em que a reinterpretação das tradições bíblicas à luz do momento presente promove uma noção mais avançada e madura de Deus, resultando numa relação mais saudável entre os homens. O que essas instâncias positivas têm em comum é que o Deus descrito por elas é sempre mais misericordioso e menos tribal, mais inclusivo e menos vingativo do que a figura divina que prevalecia anteriormente. As interpretações que fazem a revelação avançar falam de um Deus cada vez menos obcecado com a justiça e cada vez mais obcecado com o amor. Falam, numa palavra, de um Deus maior: o Deus que já gostamos de chamar de criador mas que preferiu ser chamado de Pai.

E ninguém soube falar dessas coisas com mais intimidade do que Jesus. Como indicado por ele, um Deus maior não é o requer mais amor para si, mas o que espera mais amor entre os homens. Um mundo mais justo não é aquele em que Deus pode exercer sem impedimentos o seu poder, mas um mundo em que os homens renunciem em favor uns dos outros à busca insensata pelo poder. Fiel não é quem pede a Deus misericórdia sobre si mesmo, mas quem concede misericórdia aos outros.

* * *

Se não deve haver dúvida de que a interpretação bíblica não permanece estática, mas é renovada pela perspectiva de cada época (e, num certo sentido, de cada leitor), cada um permanece livre para reagir como quiser diante dessa notícia. Para alguns, essa contínua reformulação é clara indicação de que cada época acaba criando o seu Deus à sua própria imagem e semelhança. Para outros, é indicação de que o da Bíblia não é o Deus fora do tempo dos filósofos e dos sábios, mas o Deus de Abraão, Isaque e Jacó – o Deus que se revela no calor da história.

Talvez, como fazia Jesus, seja necessário renovar continuamente a crença de que a divindade continua trabalhando: de que não concluiu a sua criação e permanece se des-cobrindo como cada vez maior e mais ambicioso – na prática, um Deus cada vez mais invisível, mais recatado e mais indistinguível do exercício da mais simples e ardente humanidade.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A aplicação dos méritos

Paulo Brabo

Uma das coisas que separou católicos de protestantes desde o início é que os católicos têm um complexo sistema teológico e litúrgico construído ao redor da questão de mérito pessoal, enquanto os protestantes rejeitam a ideia por completo. Para um católico, o mérito é um lastro de merecimento que o cristão vai angariando através da acumulação de sacrifícios, de orações, de esmolas, de abstinências e de atos de caridade. Esse depósito espiritual pode ser contabilizado, acumulado, armazenado e eventualmente aplicado; é pessoal, mas transferível.

Este é um componente fundamental da noção católica de purgatório: a ideia de que os méritos dos cristãos vivos podem ser aplicados na compensação dos pecados não ressarcidos dos cristãos mortos, de modo a acelerar a sua entrada no Paraíso. Isso se faz oferecendo-se missas, ofertas e orações – não aos mortos, mas em favor deles.

Essa aplicação dos méritos é a transação que faz a fila do purgatório andar. Se não contarem com a intervenção indenizadora dos vivos, as almas do purgatório terão de purgar suas dívidas através de seus próprios sofrimentos, processo que é tão dolorido quanto demorado. Nessas horas vale mais ter um amigo na terra do que um no céu. Santa Teresa de Ávila1:

Recebi a notícia da morte de um religioso que havia sido padre provincial naquela província, mais tarde também em outra. Embora esse homem fosse louvável por muitas virtudes, fiquei apreensiva pela salvação da sua alma, pois ele havia sido Superior pelo espaço de vinte anos, e sempre temo muito pelos encarregados com o cuidado de almas. Muito aflita, fui até um oratório, onde supliquei que nosso Divino Senhor aplicasse em favor desse religioso o pouco bem que eu havia praticado durante a minha vida, suprindo o restante por seus infinitos méritos, a fim de que essa alma pudesse ser liberta do purgatório. Enquanto buscava essa graça com todo o fervor de que era capaz vi à minha direita essa alma surgir das profundezas da terra e ascender ao céu num arrebatamento de júbilo.

Tirando de lado por um momento a própria ideia de purgatório, que requer tratamento mais generoso do que o que podemos dar aqui, para nós de herança protestante parece haver algo de inerentemente perverso e inaceitável na lógica do acúmulo e da aplicação de méritos pessoais. Algo de, para dizer o mínimo, pouco neo-testamentário. Então o Novo Testamento não ensina que não há um justo sequer? Não ensina que as obras são mortas, inteiramente incapazes de produzir qualquer crédito em nosso favor? Não ensina que o único mérito pelo qual acessamos a salvação é o de Jesus, creditado em nosso favor mediante a fé nele? Não foi essa própria sacada, a da salvação pela fé e pela graça, que impulsionou a Reforma?

Não há aqui espaço para retraçar de que modo a igreja católica desenvolveu a sua teologia do mérito, ou de que modo a Reforma a demoliu. O certo é que essas duas ortodoxias produziram culturas e visões de mundo muito diversas.

Do nosso lado, a ênfase da Reforma na salvação pela graça acabou meio que banindo as boas obras do ideário protestante. Lembramos constantemente que “pela graça sois salvos, por meio da fé; isto não vem das obras, para que ninguém se glorie”, mas esquecemos com facilidade que o verso seguinte explica que “fomos criados para boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas”. Criados para as boas obras talvez nos pareça exigente demais; por certo nos parece legalista demais. Preferimos parar em “salvos por meio da fé”.

A teologia reformada, que gerou a seu modo protestantes e evangélicos, deixou-nos como herança a constrangedora hesitação que temos diante de fazer a coisa certa. Não queremos usurpar em nada a divina primazia nessa área, pelo que tomamos a humilde resolução de sequer desejar para nós mesmos uma bondade ativa e positiva. Nos casos mais extremos, a mera possibilidade de fazer atos meritórios nos causa repulsa e indignação. Como estamos convictos de que nada há de verdadeiramente meritório nas boas obras, fazer o bem não apenas nos interessa: em certo sentido enxergamos a coisa como verdadeira tentação.

Historicamente, esse banimento teológico da generosidade gerou a proverbial vacilação calvinista em ajudar os pobres e envolver-se em projetos assistenciais – tarefas que preferimos deixar a católicos que não sabem o mal que estão fazendo. Não é de admirar, diante desse cenário, que o reformado sinta-se teologicamente constrangido a permanecer politicamente de direita. Qualquer tentativa de mudar o mundo pela via das boas obras e da distribuição de renda é interpretada como usurpação de uma bondade e de um mérito que cabem apenas a Deus. Quem somos nós, meros humanos e pecadores, para nos arvorarmos a fazer a coisa certa?

Essa postura, ao mesmo tempo, não é mera curiosidade histórica. Há nos nossos dias pensadores reformados que defendem seriamente a tese de que a generosidade para com os pobres, quer exercida em nível pessoal ou institucional, representa na realidade uma perversa usurpação da autoridade divina. Nenhum rico deve sentir-se culpado pela sua opulência ou constrangido a dividi-la, porque foi a divina soberania quem decidiu em favor do rico e contra o pobre. Não devemos absolutamente deixar que a tentação da generosidade nos leve a desafiar ou alterar a justa ordem daquilo que Deus predeterminou.

Evangélicos e pentecostais, que são em geral menos ricos do que os reformados e não podem contar com o refrigério econômico de sua teologia, preferem investir o dinheiro que lhes resta em campanhas institucionais de prosperidade – enchendo o bolso de pastores que lhes oferecem, incessantemente, a promessa de ser tornarem tão ricos e bem sucedidos quanto sonham.

Em resumo, as chances de que protestantes e evangélicos sejam apanhados fazendo alguma obra meritória são pequenas. A bondade cristã é um serviço sujo que, se alguém tem de fazer, que sejam em sua cegueira e idolatria os católicos.

Por outro lado, apesar de nossa hesitação ideológica em angariar méritos pela acumulação de boas obras, a verdade é estamos longe de rejeitar a prática da aplicação de méritos em favor de uma causa específica.

A primeira diferença está em que, ao contrário de Teresa de Ávila e dos católicos em geral, os créditos que pedimos que Deus aplique para a realização de nossas súplicas não são os que nós mesmos acumulamos (porque, como vimos, não nos rebaixaríamos a tanto), mas os de Jesus. A mecânica subjacente é a mesma da oração de Teresa, mas não requer esforço nenhum de nossa parte. Quando a questão é mérito, com Jesus não dá pra competir, por isso decidimos nem tentar.

A segunda diferença (e esta talvez seja ainda mais reveladora) está em que Teresa pedia em favor de outra pessoa, alguém que ela cria estar precisando de mais auxílio do que ela mesma – e nós em geral suplicamos em favor de nós mesmos e de nossos próprios interesses. Nossas orações são saques que fazemos de uma conta celestial com fundos inesgotáveis (quem ousaria encontrar um fim para os méritos do Filho!), e esses cheques saem mundo afora, milhões deles, todos assinados em nome de Jesus. O curioso é que, embora creiamos ter toda essa formidável riqueza a nosso dispor, é muito raramente que nos ocorre pedir a Deus que aplique esses recursos em favor dos outros. Que Deus não esqueça de proteger a minha casa, de abençoar a minha família, de dar a mim um bom emprego, de conservar-me com saúde, de conceder-me prosperidade e de aumentar a minha fé.

Se é tão raro que peçamos a Deus em favor dos outros também é porque, no mero ato de enumerar as necessidades dos outros correríamos o risco de trazer ao nível da consciência aquilo que nós mesmos poderíamos fazer por eles; poderíamos nos ver até mesmo tentados a cometer um ato meritório ou dois, e Deus nos livre de sujar as mãos com a virtude. Queremos manter a nossa integridade.

Os católicos, portanto, ousam pedir a Deus em favor dos outros com o lastro de méritos que eles mesmos acumularam. Mais humildes e mais cristãos, preferimos pedir a Deus em nosso próprio favor com o lastro do mérito dos outros. Quem poderia nos condenar?

Não ousamos sequer acompanhar a nossa súplica de uma promessa, como por vezes fazem os católicos – porque, veja bem, fazer o bem em reposta à bondade comprovada de Deus seria muita arrogância da nossa parte.



NOTAS
Citada por F. X. Schouppe em seu Purgatório. [↩]

Fonte:
http://www.baciadasalmas.com/2011/a-aplicacao-dos-meritos/

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Quem vive com salário mínimo é que merece uma medalha

Blog do Sakamoto

Estava debatendo com meus alunos, dia desses, sobre o processo de construção da identidade e como o nacionalismo é utilizado sistematicamente para ir à guerra contra um suposto inimigo em nome de algo que, não necessariamente, mereceria tal esforço. Nestes dias de medalhas de ouro, prata e bronze, construímos heróis que dão orgulho de nos sentirmos brasileiros – é um nadador aqui, um mesatenista ali, uma jogadora de voley, uma corredora. Atualizei uma discussão que já havia feito aqui, mas vale a pena.

Senna ocupou espaço de mártir na TV quando a seleção brasileira de futebol (que é a heroína – literalmente – de plantão) estava em baixa. Usineiros já foram chamados de heróis pelo presidente da República. Quando um grande empresário morre, há um esforço para que ele se torne a referência que não foi em vida. Alguém vai me tacar uma pedra por colocar um ídolo do esporte e um usineiro de cana no mesmo bote. Mas não estou discutindo caráter, apenas dizendo que nós, da mídia, e o poder criamos heróis sem nenhum constrangimento. Às vezes, sem intenção.

Quem mora em São Paulo sabe que havia uma avenida chamada Águas Espraiadas. Mas a prefeitura acabou por rebatizá-la, homenageando um morto ilustre. Seria preferível, na minha opinião, que ganhasse o nome de Jornalista Vladimir Herzog, que se dedicou à liberdade e foi assassinado pela ditadura, mas vá lá. Esconder os verdadeiros heróis, seja largando-os ao ostracismo, seja fazendo suas biografias competir com histórias de “heróis de ocasião” diz muito sobre um país.

Ao centrar o foco nesses exemplos, considerando-os caminhos a serem seguidos, nos distanciamos de quem mereceria ganhar uma medalha de verdade. Perguntei a um amigo que cobre a área de esportes, quantos heróis são “fabricados” por ano na área. Ele respondeu dizendo que os exemplos de superação pessoal são os pinçados com freqüência.

Seguindo essa lógica, apresento um nome para ser incensado nem que seja por 15 minutos. Antônio acorda às 5h da manhã, pega suas coisinhas, com duas conduções vai até Santo Amaro para vender café da manhã na rua. Depois, quando os clientes desaparecem, é hora de começar a trabalhar o serviço de pintor, bico que rende algo no final do mês mas que sinceramente não vale a pena – como ele tem três crianças e uma mulher com câncer em casa, que luta há anos para não morrer na rede pública, pois não tem acesso ao Sírio Libanês, é o jeito. À noite, acende o fogo e começa a vender churrasquinho no ponto de ônibus para completar a renda. Chega em casa cinco horas antes de ter que acordar novamente. Como mora perto do autódromo de Interlagos, pôs sua churrasqueira perto de casa para conseguir algum em um final de semana lotado. A Guarda Civil Metropolitana levou tudo embora. Como ele ia trabalhar no dia seguinte? Sei lá. Superação.

É claro que ninguém gostaria de seguir o exemplo de Antônio. A sua vida não tem o glamour de treinar natação nos Estados Unidos e sua mulher, quando teve um problema sério e quase perdeu o braço, não pegou helicóptero, mas sim um busão para ir ao pronto-socorro. Uma droga, para ser curto e grosso. Não adianta dizer que ele é feliz, que tem Deus no coração, que a família o ama. Isso é apenas jogar purpurina em cima.

É Antônio, mas podia colocar aqui uma relação de nomes, grossa como uma lista telefônica, de pessoas que aceitam a mesma batalha no dia-a-dia porque se desistirem, morrem – e nunca ganharão uma medalha por isso. Pelo contrário, são tratadas como restolho da sociedade, mão-de-obra barata, voto fácil, massa burra, pelas elites econômica e política. Apesar de servi-los, alimentá-los, transportá-los, enriquecê-los. Se usineiros são heróis, cortadores de cana são o que?

Na hora em que o nome de qualquer um desses, cuja desgraça é apenas um detalhe e por isso mantém-se escondida embaixo do tapete, for retirado das entranhas da sociedade e gritado a plenos pulmões como alguém que merece ser um herói, não precisaremos mais de heróis.

E não encararíamos adversários como inimigos.

domingo, 16 de outubro de 2011

Teologia da Libertação e sua relação com as teologias deste século

Ermanno Allegri
Diretor da ADITAL
Adital


Durante a Jornada Teológica da Região Norte, realizada de 5 a 8 de outubro, na Cidade do México com a participação de representantes da Teologia da Libertação, especialmente mexicanos e hispânicos dos Estados Unidos e Canadá, Adital conversou com Enrique Dussel, filósofo, teólogo e professor da Universidade Nacional Autônoma do México – UNAM. Na oportunidade, foram abordados temas como a Teologia da Libertação e os novos pensamentos que merecem a atenção na produção teológica, a onda de manifestações desencadeada pelos indignados da Espanha e pelos estudantes chilenos, e o livro El Pensamiento Filosófico Latinoamericano, del Caribe y ‘Latino': de 1300 y hasta 2000.

Confira a entrevista.

ADITAL: Atualmente, que fatos e que pensamentos novos merecem a atenção na produção teológica, sobretudo no que se refere à Teologia da Libertação e as teologias que dela nasceram?

Enrique Dussel: Alguns creem que a Teologia da Libertação acabou porque foi muito criticada dentro das igrejas, especialmente pela Católica, pelo Vaticano. Muitos bispos foram nomeados para condenar essa Teologia. Porém, o que acontece é que essa Teologia da Libertação, primeiro, foi a única nascida na América latina e que responde à nossa realidade, de maneira que qualquer pessoa que queira estudar teologia, quando lê as obras teológicas europeias entende que é uma teologia dogmática, abstrata e crê que isso é a teologia. Porém, quando lê a Teologia da Libertação Latino-americana, percebe que é uma teologia ligada à nossa realidade e que está explicando as contradições de nossa cultura. É uma diferença abismal. Por isso, é a única latino-americana e tem sido muito perseguida; porém, necessariamente, terá que ressurgir, e as teologias do futuro terão que referir-se a ela. Além disso, como mencionaste, há muitas teologias novas: a teologia indígena, a teologia afro-americana, a teologia feminista. Porém, todas são como um prolongamento da Teologia da Libertação. Esta foi uma teologia fundamental, que deveria ter sido desenvolvida diferencialmente e isso é o que está acontecendo. Isto é, que a teologia feminista é uma teologia da libertação e assim as demais. Vejo isso muito presente. Agora, deveríamos exigir que os jovens, as novas gerações, instrumentem com categorias filosóficas, sociológicas, antropológicas, psicanalíticas as mais importantes, as mais críticas e as mais atuais; e pensem a teologia a partir disso, e não simplesmente que pensem a teologia a partir de si mesma; mesmo a partir somente da Teologia da Libertação, pois, torna-se repetitiva. A Teologia da Libertação foi a fé cristã de pessoas que sabiam teologia; porém, incluía ciências sociais e tinha uma prática com as pessoas; ao falar de teologia, propunha novos temas e novas soluções. E, por isso mesmo, era tão original. E é isso o que está faltando agora: voltar a essa originalidade, porque muitos já repetem a Teologia da Libertação e esse não é o tema, ou, claro, fazem um comentário às obras europeias (mesmo as progressistas); porém, estão muito longe da Teologia da Libertação. Inclusive, a teologia Política europeia não é o que necessitamos.

ADITAL: Vivemos uma mudança de época e há valores que estão perdendo vigência para dar espaço a novos valores. Quais enfoques a Teologia da Libertação e o trabalho que fazemos como cristãos devem ser desenvolvidos para construir a nova história?

ED: O movimento de libertação surgiu de todos os movimentos que aconteceram no final dos anos 60 e, politicamente, foi a Revolução Cubana a que mobilizou a estrutura da política latino-americana, porque era uma revolução muito temida pelos Estados Unidos e que fez com que todo o campo político se movimentasse, culminando nos movimentos de 1968, que não se reduziu ao movimento estudantil, em Paris ou em Berlim; mas, aconteceu no México, em Tlatelolco; na Argentina, com o Cordobazo; e na América Latina o ano de 68 teve muita importância; porém, também foi um momento teórico porque houve uma nova Filosofia, sobretudo com a Escola de Frankfurt, através da qual se começou a conhecer Franz Borgan. Então, foi um movimento de grande criatividade teórica, criatividade prática, compromisso dos cristãos nos movimentos políticos. Era necessário dar uma nova explicação de como comprometer-se. Muitos, com a atração do marxismo, perdiam sua fé ou então tinham que dar uma nova explicação para que a fé continuasse funcionando como geradora da política e não se perdesse no compromisso. A Teologia da Libertação conseguiu isso; fez com que toda uma geração de jovens não só não perdessem sua fé, mas que fossem a vanguarda em um processo de mudança na América Latina e que culminou com a revolução Sandinista, que foi levada quase por cristãos. No Chile, o mesmo, a presença de cristãos; e daí em diante, sempre a presença de cristãos, pois já sabiam como lidar com mudanças históricas com a Teologia Renovada. Para os grupos conservadores, para as estruturas mais hierárquicas da Igreja, isso era muito crítico e não o aceitaram. Assim, após o Grande Concílio, que abriu as portas (na realidade, o Concílio Vaticano II, como não se interessava muito pelo Direito Canônico, nem pelas instituições vaticanas, porque não lhe davam importância, pois não as mudou), essas instituições romanas e esse Direito Canônico retomaram o poder na Igreja e o profetismo do Concílio começou a ficar para trás, como está hoje; e, claro, tudo isso gera uma mudança completa.

Porém, de todas as maneiras, hoje, é necessário voltar à Teologia a partir do horizonte dos novos pensadores; é necessário perceber quem são os grandes filósofos, sociólogos que podem dar-nos, à Teologia, uma nova visão; e, ao mesmo tempo, o sistema capitalista, especialmente o sistema financeiro, está em uma crise espantosa. Porém, ao mesmo tempo, começa a fazer algo que nunca fez na história do liberalismo e do capitalismo: explorar ao Estado Nacional; isto é, o capital financeiro que são os bancos e a bolsa está acostumando-se a fazer negócios com os Estados. Os capitalistas roubam seu dinheiro, guardam seu dinheiro nos bancos, declaram-se em quebra e pedem para ser resgatados pelo Estado e esse é um negócio fantástico e os Estados até agora não sabem como funciona o sistema e os estão ajudando para que o sistema bancário não entre em bancarrota. Porém, chegará o dia em que o sistema bancário terá que ser nacionalizado e se acabar toda a propriedade privada do capital financeiro porque está estafando aos Estados e isso faz com que os povos comecem a insurgir-se. Aí estão as comoções na Grécia e o Movimento dos Indignados nos faz pensar que estamos em 1968.

É uma grande oportunidade para uma grande Teologia e também estamos vivendo uma mudança de época fundamental.

ADITAL: Nesse momento de mudança de época, houve um acontecimento fundamental para a história da filosofia: foi lançado, aqui no México, o livro El Pensamiento Filosófico Latinoamericano, del Caribe y ‘Latino': de 1300 y hasta 2000. Você, Enrique Dussel, com Eduardo mendieta e Carmen Bohórquez aticularam essa obra, um volume de mais de mil páginas. Pode explicar o sentido novedoso e revolucionário dessa obra?

ED: Claro! Penso que essa obra é a culminação de um processo de um século que começa em 1910, com a Revolução Mexicana e começar a pensar muito rápido se há ou não há e como deve haver uma Filosofia Latino-americana, com Francisco Romero, na Argentina; com Leopoldo Zea, no México e grandes autores que estudaram a história do pensamento filosófico; porém, não falaram propriamente de uma filosofia latino-americana que propusesse perguntas e que respondesse de uma maneira original de tal forma que se colocasse dentro da discussão filosófica mundial com uma postura distinta. Creio que a primeira filosofia que faz isso explicitamente é a Filosofia da Libertação. Que não é somente uma História da Filosofia Latino-americana, mas uma Filosofia que tem consciência de ser distinta da europeia e da americana e tem perguntas distintas, respostas distintas e metodologia distinta. Agora, esse movimento original de Filosofia da Libertação necessita reconstruir a história dessa opção que diz "temos que pensar desde a América latina; porém, temos que pensar desde os oprimidos/as da América Latina”.

Essa não seria a perspectiva da maioria dos filósofos; mas, da minoria. Por isso é que essa obra, em certo sentido, é uma negociação política com todas as correntes filosóficas, onde autores prestigiados das distintas correntes (e são 18 correntes) fizeram parte dessa obra, que não é uma História da Filosofia Latino-americana a partir da Filosofia da Libertação.

É algo prévio; é uma primeira visão de conjunto. Porém, o fato de que um estudante possa ter essa obra em suas mãos e tomar conhecimento de todos os grandes filósofos latino-americanos com certas perguntas novas já é um fato original de uma nova época. Por isso é que é o fim de um processo de tomada de consciência e daqui em diante surgirão muitas outras Histórias da Filosofia. Porém, terão que referir-se a essa como ponto de partida, porque foi a primeira. E tem muita originalidade: é a primeira que considera a filosofia dos grandes sábios das grandes culturas originárias. Por isso, colocamos uma data simbólica: 1300. Poderia ter sido 800, porque há sábios; porém, em 1300 já há pensadores indígenas, com biografia, com data de nascimento e morte; obras conhecidas em códices... Então, já podemos falar deles. Também, queríamos romper com 1492. Então, são 700 anos de Filosofia na América Latina. E, claro, incluímos ao Caribe, porque é parte da América Latina e a parte Latina nos Estados Unidos; são 50 milhões de habitantes e têm um pensamento filosófico. O consideramos latino-americano; então, é forte.

O século XVI é o começo da filosofia moderna da Europa.

Da Europa que ‘conquista' a América Latina e o Caribe e se perguntam: ‘podemos fazer isso? Temos o direito? Eles são homens; são pessoas humanas? E os europeus fazem essas perguntas até a modernidade e dizem: "o indígena é um ser humano se segunda categoria e, portanto, temos direito a beneficiá-lo com a conquista”.

Todavia esse é o pensamento da Filosofia Europeia e Americana hoje, porque continuam pensando que a África, a América Latina são subdesenvolvidos, subumanos. Veja como tratam aos latino-americanos nos Estados Unidos; são gente de segunda... E não percebem.

Quando vou aos Estados Unidos a um congresso sobre Descartes, que é o primeiro filósofo moderno (falo como eurocêntrico), recordo que Descartes estudou em um colégio jesuíta e quando tinha 13 anos estudou o curso de Lógica. A Lógica é a parte mais estrutural, abstrata e metódica da Filosofia; e estudou a Lógica de Antonio Rubio, que era um filósofo mexicano que escreveu um comentário de Aristóteles, conhecida como a Lógica Mexicana.

Descartes estudou Lógica a partir de um filósofo mexicano. Como isso é possível? Porque havia um século de filosofia antes de Descartes já era filosofia séria, mundial; porque os jesuítas que publicavam essas Lógicas estavam na África, na Índia, no Japão e conheciam todo o mundo periférico e, além disso, estavam de Estocolmo até a Itália e conheciam o mundo. Então, houve uma Filosofia no Século XVI que a modernidade ocultou; porém, que, nós, latino-americanos, devemos ressuscitar, porque é nossa primeira etapa, como filosofia europeia, não somente como filosofia latino-americana. Colocar o século XVI não como o início dos estudos latino-americanos, mas como o primeiro capítulo da Filosofia Moderna será uma batalha difícil; porém, é o que nossa obra começa a fazer.

Então, não é folclórica, nem latino-americana. É uma filosofia com sentido mundial que começou na América Latina; porém, agora ganha uma dimensão importante no diálogo intercultural com a África e a Ásia.

ADITAL – As Jornadas Teológicas Norte podem marcar uma nova reflexão teológica e uma nova ação no trabalho social (é a caridade) das Igrejas e em sua presença no mundo? Devemos recordar que nestas Jornadas o enfoque ecumênico tem sido fundamental.

ED: Sim, e por isso me parece que essas atitudes são importantes e que sejam ecumênicas, pois diante desse enlameado da cúpula eclesial católica – que desde o Vaticano não pensa para nada em uma originalidade prática e pastoral do povo Latino-Americano, asiático e africano e porque estamos vivendo um papado completamente eurocêntrico -, o ecumênico dá muito mais liberdade e permite planejar outros temas. É importante tomar consciência de que é necessário o que eu dizia em um encontro em Cuba há anos, que devemos criar a segunda Teologia da Libertação. E, qual é a diferença desta segunda com a primeira? Eu marco 16 diferenças: epistemológicas, temáticas... Muitas coisas novas têm surgido. Não é assunto de comentar o que se fez há 40 anos; tem que fazer tudo de novo, mas com a mesma hipótese.

ADITAL: O senhor escreveu isso em algum livro ou artigo?

ED: Existe um artigo meu em uma reunião de Matanzas: ‘A nova Teologia da Libertação e a diferença com a dos anos 60'; porque os autores que tratavam nos ´60s não são os autores (filósofos, sociólogos, politicólogos) que se usam no XXI. Então eu, pessoalmente, estou muito atento ao pensamento político e filosófico contemporâneo até a última obra do ano passado. Então, posso pensar uma Teologia a partir disso. Agora não sou professor de Teologia; ninguém me chama a fazer; seria perigoso. Sou filósofo, mas se me pedem para fazer Teologia, sou teólogo; se me pedem para fazer História, sou historiador. Não conheço bem essas disciplinas por profissão, estou fazendo Filosofia por modus vivendi. Mas esta Filosofia é como a epistemologia da Teologia da Libertação para entender a história da Teologia Latino-Americana. O que fiz em um livrinho que se chama ‘História da Teologia da Libertação', que também mostra as mesmas etapas e como se foi fazendo porque houve uma Teologia da Libertação no século XVI crítica da conquista, uma Teologia da Libertação da Emancipação em crítica à Espanha e Portugal e justificando a emancipação e a nossa é de certa maneira a Terceira Teologia da Libertação, a deste processo de emancipação colonial de nosso país a respeito de EUA e Europa. Agora, o nosso inimigo EUA, é a Metrópole e tem que se livrar dele. No século XIX foram Espanha e Portugal e no começo foi a crítica da conquista que foi a expansão europeia. Então, tem que ter uma visão histórico-mundial para poder não receber objeções de algum lugar.

ADITAL: Praticamente escreveram uma História da Igreja

ED: É interessante, escrevemos a história da Igreja, a primeira. Tiramos a história dos conservadores; nunca os progressistas e revolucionários escrevem a história. Nós progressistas e revolucionários escrevemos a primeira história em 10 tomos, tomamos o lugar dos conservadores. Agora eles fazem história desde Espanha, as pessoas do Opus Dei... Bem, é uma história anedótica, desta que aborrece. A nossa era dar aos atores da história a compreensão do que estavam fazendo. Tiramos-lhes a história; tiramos-lhes a tradição; porque a elevamos. É um processo sério e que tem muito futuro.

ADITAL: O senhor afirmou que é necessário considerar a história sempre em uma visão mundial. Hoje, os ‘indignados' da Grécia, Espanha, Wall Street...; os estudantes no Chile; as mobilizações dos países árabes questionam o modelo capitalista da sociedade. Quais os denominadores comuns nessas mobilizações que são de libertação?

ED: O movimento na realidade começou entre os árabes, no Egito. Assim, que não começou nos indignados da Espanha; é um fato, é um efeito da crise do capitalismo. O capitalismo, por sua tecnologia, cria um desemprego estrutural e o desemprego não pode se solucionar nunca mais, porque há, que o diga Marx, população de sobra. Mas, não há população de sobra; há um sistema que nos fala que não pode absorver a população, que não diminui a jornada de trabalho, uma quantidade de coisas que se cria um gargalo da garrafa onde a contradição e a contradição é que tem uma desocupação estrutural, especialmente entre os jovens que são os que não entram no sistema. E é por isso que desta vez não são os operários, como pensava Marx, nem são os camponeses, como pensava Mao... De pronto são os jovens, porque são os que não têm mais entrada no sistema, estão fora do sistema; e todo o sistema de poder, em 50 anos, de pleno emprego, de aposentadorias, de segurança social que um capitalismo crescente pôde oferecer, se acabou. Agora, na realidade, as pessoas não vão se aposentar mais; vão trocar de trabalho, o que não está mal; o velho trabalhará de outra maneira. Não vejo para quê deixar de trabalhar; mas que trabalhe um trabalho que um velho possa fazer; mas tem que trabalhar muito menos, quatro ou cinco horas por dia e então em seguida todo o mundo estaria trabalhando; ganhará menos porque terá menos necessidades: não tem que trocar de carro a cada ano, mas sim a cada 30 anos porque os carros serão bons. E não vou trocar de roupa todos os dias... Eu tenho estes sapatos que comprei em Chicado em 1989, há mais de 20 anos e eu digo: a fábrica de sapatos já se haverá dissolvido porque são tão bons que não vendem mais sapatos; mas esses são bons. E então a humanidade necessita de muito menos coisas para aumentar a qualidade de vida: a redução das necessidades supérfluas e o aumento das necessidades qualitativas. Para isso a economia pode se reduzir muitíssimo e não há necessidade da moda e então a eletrônica vai entrar a ser um grande instrumento. Estamos no fim de uma época nestes anos para uma nova modernidade. É uma nova época da humanidade, mais além da modernidade. Vai ser um novo sistema ecológico, humano, com outros critérios do que começou no século XVI. A questão é grave e estamos vendo essa efervescência da vida; mas os jovens já não poderão ser sistema.

ADITAL: Os indignados estão fazendo história...

ED: Eu tiro agora um livrinho: "Cartas aos Indignados” (*) e vou publicar aqui no México e vou te enviar no Brasil. É uma Carta aos Indignados; um tratadinho de 60 páginas, político; e digo aos indignados: vocês podem estar um tempo nas praças; mas, no fim, vão tem que voltar às casas. Mas, o que tem que fazer é mudar o sistema político. Tem que criar um sistema participativo, representativo e então criar todas as instituições nas quais o povo possa exigir a representação e fiscalizar. É um novo sentido para a democracia. A democracia, na realidade, nunca foi participativa; a norte-americana foi apenas representativa. Tem que fazer uma revolução política para que os indignados deixem de estar nas praças e estejam nas instituições políticas, como povo, vigiando. E então isso vai ser o fim do capital financeiro e vai ser a participação do povo para a melhor vida de todos e não de uma elite. Então vem uma grande revolução que mesmo Marx não havia previsto, porque ele a pensava econômica. Mas a revolução é política, porque quando o povo tomar o poder de verdade, institucionalmente, o sistema econômico vai mudar; mas como fruto da decisão política. Então, estamos em um momento político e eu estou elaborando uma Filosofia Política e sai uma Teologia Política. De um tratado que nunca a Teologia tratou, o Tratado de Estado como construtor do Reino de Deus.

ADITAL: Realmente esta questão é nova e deve ser debatida. Como o senhor a entende?

ED: A Igreja é uma instituição do Reino de Deus; mas o Estado é tão construtor do Reino de Deus quanto a Igreja. Ela divide o pão porque existe fome, bom. Mas dar de comer ao faminto o faz o Estado; é seu papel político. A igreja recorda que tem de dar de comer, claro. Nunca, até hoje, se tem feito uma Teologia do Estado porque está posto a Teologia e o Estado, duas coisas: o Estado é o secular e a Igreja o espiritual. Falso: o Estado constrói o Reino de Deus e não é secular; é uma instituição construtora do reino de Deus. Não é eclesial; mas o que passa é que a religiosidade se identifica com o secular e o fetichismo também. Entra na Igreja e entra no Estado: é uma nova teologia. É a próxima Teologia da Libertação...

ADITAL: É difícil pensar nesse Estado de que o senhor fala porque estamos acostumados a outros tipos de Estados…

ED: Sim, mas também é difícil falar de Igreja porque estamos acostumados a outros tipos de Igreja. Olhe a igreja burocrática, gerontocrática, machista, dogmática: é uma miséria. Jesus era um homem jovem e esta é de puro velhos, machos... Onde está a mulher?..., as mulheres... Onde estão as mulheres?... Não tem nenhuma compreensão. Então, que igreja... Está cheia de pecado. Bom, o Estado também. Assim como se fetichiza a igreja, se fetichiza o Estado. Nenhuma instituição é perfeita. São instrumentos nas mãos de Deus; são os Messias proféticos ou Messias reais, os que dão vida às instituições. Mas sem a profecia, burocratiza-se a Igreja. Mas, sem a instituição, a profecia também desaparece, porque não há escola de profetas, não há tradição. E onde está a nova geração? Então é uma instituição profética que às vezes é mais instituição e se fetichiza...; e às vezes mais profecia e aí cumpre. O mesmo no Estado. O Estado por aí é mais representativo e domina; mas quando for mais participativo vai ser um Estado messiânico e então tem de pensar na santidade do político e disso não se tem feito nada. Fala-se de fé e política como que eu me comprometo em algo obscuro, difícil, secular que não tem a ver com o reino de Deus. Então me pediram para fazer um curso agora ‘fé e política'. Não sabes o que vou fazer!... Porque vou falar de santidade, de compromisso político construtor do reino de Deus. Agora isso o dizia, por exemplo, La Pira, um grande democrata cristão que foi prefeito de Florência, na Itália; era santo depois da Segunda Guerra Mundial, democrata, cristão, evangélico que lutava pelas pessoas e pelos pobres. Era um grande político. Depois, seu partido foi burocratizado e a democracia que tinham ficou na direita e defende o capital. Merkel não tem nada a ver com Adenahuer e os atuais democratas cristãos, todos corrompidos com a droga e com a máfia... Mas um Adenahuer era um tipo que havia lutado contra Mussolini e era um grande político cristão. Mas, esses sim, tinham o carisma político tanto quanto um bispo ou um cura; mas trabalhavam em outra institucionalidade. A mística da política tem que voltar.

(*) O autor prometeu enviar a Adital cópia desse material e, após recebermos, publicaremos.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Do quinto evangelho: proclamação do Cristo do Corcovado

Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital

Naqueles dias, ao se completarem 80 anos de existência, o Cristo do Corcovado estremeceu e se reanimou. O que era cimento e pedra se fez carne e sangue. Estendendo os braços, como quem quer abraçar o mundo, abriu a boca, falou e disse:

"Bem-aventurados sois todos vós, pobres, famintos, doentes e caídos em tantos caminhos sem um bom samaritano para vos socorrer. O Pai que é também Mãe de bondade vos tem em seu coração e vos promete que sereis os primeiros herdeiros do Reino de justiça e de paz.

Ai de vós, donos do poder, que há quinhentos anos sugais o sangue dos trabalhadores, reduzindo-os a combustível barato para vossas máquinas de produzir riqueza iníqua. Não serei eu a vos julgar, mas as vitimas que fizestes atrás das quais eu mesmo me escondia e sofria.

Bem-aventurados sois vós, indígenas de tantas etnias, habitantes primeiros destas terras ridentes, vivendo na inocência da vida em comunhão com a natureza. Fostes quase exterminados. Mas agora estais ressuscitando com vossas religiões e culturas dando testemunho da presença do Espírito Criador que nunca vos abandonou.

Ai daqueles que vos subjugaram, vos mataram pela espada e pela cruz, negaram-vos a humanidade, satanizaram vossos cultos, roubaram-vos as terras e ridicularizaram a sabedoria de vossos pagés.

Bem-aventurados e mais uma vez bem-aventurados sois vós, meus irmãos e irmãs negros, injustamente trazidos de África para serem vendidos com peças no mercado, feitos carvão para ser consumido nos engenhos, sempre acossados e morrendo antes do tempo.

Ai daqueles que vos desumanizaram. A justiça clama aos céus até o dia do juízo final. Maldita a senzala, maldito o pelourinho, maldita a chibata, maldito o grilhão, maldito o navio-negreiro. Bendito o quilombo, advento de um mundo de libertos e de uma fraternidade sem distinções.

Bem-aventurados os que lutam por terra no campo e na cidade, terra para morar e para trabalhar e tirar do chão o alimento para si, para os outros e para as fomes do mundo inteiro.

Maldito o latifúndio improdutivo que expulsa posseiros e que assassina quem ocupa para ter onde morar, trabalhar e ganhar o pão para seus filhos e filhas. Em verdade vos digo: chegará o dia em que sereis espoliados. E a pouca terra da campa será pesada sobre vossas sepulturas.

Bem-aventuradas sois vós, mulheres do povo, que resististes contra a opressão milenar, que conquistastes espaços de participação e de liberdade e que estais lutando por uma sociedade que não se define pelo gênero, sociedade na qual homens e mulheres, juntos, diferentes, recíprocos e iguais inaugurareis uma aliança perene de partilha, de amor e de corresponsabilidade.

Benditos sois vós, milhões de menores carentes e largados nas ruas, vítimas de uma sociedade de exclusão e que perdeu a ternura pela vida inocente. Meu Pai, como uma grande Mãe, enxugará vossas lágrimas, vos apertará contra o seu peito porque sois seus filhos e filhas mais queridos.

Felizes os pastores que servem, humildemente, o povo no meio do povo, com o povo e para o povo. Ai daqueles que trajem vestes vistosas, se envaidecem nas televisões, usam símbolos sagrados de poder, exaltam o Pai Nosso e esquecem o Pão Nosso. Quantos não usam o cajado contra as ovelhas ao invés de contra os lobos. Não os reconheço e não testemunharei em favor deles quando aparecerem diante do meu Pai.

Bem-aventuradas as comunidades eclesiais de base, os movimentos sociais por terra, por teto, por educação, por saúde e por segurança. Felizes deles que, sem precisar falar de mim, assumem a mesma causa pela qual vivi, fui perseguido e executado na cruz. Mas ressurgi para continuar a insurreição contra um mundo que dá mais valor aos bens materiais que à vida, que privilegia a acumulação privada à participação solidária e que prefere dar os alimentos aos cães que aos famintos.

Bem-aventurados os que sonham com um mundo novo possível e necessário no qual todos possam caber, a natureza incluída. Felizes são aqueles que amam a Mãe Terra como sua própria mãe, respeitam seus ritmos, dão-lhe paz para que possa refazer seus nutrientes e continuar a produzir tudo o que precisamos para viver.

Bem-aventurados os que não desistem, mas resistem e insistem que o mundo pode ser diferente e será, mundo onde a poesia anda junto com o trabalho, a musica se junta às máquinas e todos se reconhecerão como irmãos e irmãs, habitando a única Casa Comum que temos, este belo e irradiante pequeno planeta Terra.

Em verdade, em verdade vos digo: felizes sois vós porque sois todos filhos e filhas da alegria pois estais na palma da mão de Deus. Amém”.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O crepúsculo dos deuses

Eu
Quero um lugar
Que não tenha dono
Qualquer lugar

Somos gente, e gente precisa de mitos, aquelas grandes narrativas formadoras que nos alçam para além das perplexidades paralisantes da realidade cotidiana e servem de espinha dorsal sobre a qual suportamos e orientamos o arco da vida.

Como já foi suficientemente demonstrado, todos vivemos debaixo de uma narrativa deste tipo, mesmo os mais céticos e descrentes dentre nós. Talvez não baste dizer que os seres humanos precisam de mitos; mais acertado seria dizer que são os mitos que nos tornaram humanos em primeiro lugar, e que são eles os patrocinadores do que nos resta de humanidade.

O ocidente pré-moderno via o arco ascendente da existência como desenhado exclusivamente por Deus: era a divindade que víamos nos conduzindo gradualmente de um presente incerto a um futuro de segurança. A condução divina era nossa narrativa sustentadora.

Na era moderna, Deus foi grosso modo substituído pela razão. Passamos a crer que a razão (equipada por todos os seus periféricos ideológicos: a ciência, a autonomia, a liberdade, a democracia, o materialismo, a privatização da produção e da vida social, o otimismo humanista, o capitalismo liberal) é quem nos guiaria de um presente incerto para um futuro de segurança. Criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.Nossa narrativa orientadora passou a ser arco ascendente do progresso conduzido pela mente racional.

Parte fundamental da estrutura de um mito (como tentei indicar acima na expressão “arco ascendente” e em verbos como “conduzir” e “guiar”) é o seu componente geográfico. Em cada mito está embutida uma promessa de deslocamento, a promessa de que seremos através da eficácia do próprio mito transferidos de um lugar para outro – em particular, do lugar em que estamos para um lugar melhor.

Independentemente do mito/narrativa que nos conduz, estamos todos antevendo e ansiando por esse “lugar melhor” de tranquilidade e abundância ao qual cremos que o mito pode nos levar. Esse destino já foi, para um punhado de hebreus sem-terra, o fulgor da Terra Prometida, que manava leite e mel. Para milhões de mulheres, escravos, párias e marginalizados de todos os impérios, foi o Paraíso em que reinariam a paz e a justiça que não encontraram na experiência terrena. Para a Europa cristã saturada, exaurida, injusta e infértil da segunda metade do milênio passado, a Terra Prometida foram as Américas, destino de impensável abundância e de irrestrita liberdade. Para os norte-americanos decepcionados com o convencionalismo, a rigidez social e o corporativismo das colônias do Atlântico, o “lugar melhor” foi o Oeste Selvagem, terra da oportunidade, da igualdade e do ouro1.

Portanto cada época (e, num certo sentido, cada lugar) teve seu próprio “mito de migração redentora” subalterno ao seu mito principal. Vivemos todos debaixo da expectativa perpétua desse lugar de abundância e de realização, esse destino ao mesmo iminente e distante, onde poderemos finalmente ser quem somos e não teremos mais de viver debaixo das limitações e constrangimentos da vida que temos agora – isto é, aqui.

No século XX, ao mesmo tempo em que a tradição cristã perdia definitivamente para a ciência o primeiro lugar como mito orientador no ocidente, os homens terminavam de mapear o globo e ponderavam com terror crescente as consequências da limitação de sua circunferência. Havendo os destinos terrestres de abundância finalmente se esgotado, a humanidade esboçou um mito de migração redentora que se adequasse ao seu novo mito orientador, e criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.

As profecias do novo mito, contendo suas promessas e advertências, passaram a ser registradas nos livros de ficção científica, que são um ramo contemporâneo da milenar literatura apocalíptica. No Apocalipse de João a salvação dos homens está na cidade celeste que desce do céu à terra; na ficção científica a salvação da terra está nos homens que sobem ao céu para edificar as cidades celestes.

A ficção científica prometeu que colonizaríamos os planetas, que viveríamos em estações orbitais sustentáveis, que exploraríamos galáxias e pisaríamos sistemas planetários repletos de riquezas que a imaginação não pode conceber. Ensinou-os que descobriríamos no espaço novas formas de vida, novas fontes de energia e recursos, para todos os efeitos, inesgotáveis. Doutrinou-os com a ideia que a exploração espacial representaria uma retomada muitas vezes multiplicada do espírito da Grandes Navegações dos séculos XV e XVI, e que recuperaríamos nela nossa vocação de plantar colônias e esbarrar em novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.

O espaço tornou-se o nosso destino redentor, “a fronteira final” que prometia e possibilitava a grande futura migração – a mágica transferência para um domínio que representaria a solução de todos os problemas energéticos, populacionais e culturais que caracterizam a condição circular do nosso planeta.

A ideologia da exploração espacial ao mesmo tempo justificou a exploração dos recursos da Terra e a requereu. Se não tomamos medidas para conter a superpopulação foi porque a ficção científica implantou no inconsciente coletivo a noção de que no futuro estaríamos colonizando o espaço sem fim. Se não tomamos medidas para conter a radical espoliação dos recursos da terra foi porque a literatura apocalípticaA exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer. da exploração espacial prometeu que em breve teríamos acesso aos recursos inesgotáveis e sem precedentes das estrelas e dos planetas2.

Porém nas últimas décadas temos testemunhado o que pode ser uma interrupção radical de toda essa narrativa, e o recente encerramento do projeto do ônibus espacial é apenas o símbolo mais recente dessa quebra de continuidade. A exploração espacial como a sonhamos talvez não seja impossível, mas o sonho tem perdido em golpes implacáveis da realidade o seu poder de factibilidade e de oportunidade, e portanto sua força de mito redentor.

Tudo que diz respeito à colonização do espaço tem se mostrado mais complexo e cheio de obstáculos do que costumávamos prever. Colocamos o pé na lua meia dúzia de vezes – custou caro e ensinou-nos muito em todas as áreas, mas foi só. Nenhum pé humano pisou o solo do mais próximo dos planetas do nosso próprio sistema, e não há qualquer perspectiva de que essa visita possa materializar-se nas próximas décadas. Se não temos como sequer antecipar ou arrebanhar a tecnologia e os recursos necessários para a mais simples das viagens interplanetárias, o sonho da colonização do nosso próprio sistema permanece distante ao ponto do irreal – quanto mais o de uma viagem a outro sistema planetário, quanto mais o de uma realidade em que esse tipo de viagem se torne coisa comum, factível e de retorno garantido.

Em particular, os cientistas intuem com cada vez mais clareza que a exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer. Se, apesar das dificuldades, conseguirmos acesso aos recursos de outros destinos planetários, será com toda probabilidade tarde demais – tarde demais, isto é, para resolver os problemas que nos apertam na nossa presente experiência no planeta.

Os cientistas esperavam, pelo menos tanto quanto os cristãos, que a salvação viesse do céu, mas estamos todos aprendendo juntos a perder essa fé3. Perdemos nosso mito subalterno de migração redentora, e hoje em dia contribuímos para o naufrágio planetário sem contar sequer com a ilusão de um plano de fuga.

Talvez não seja cedo para concluir que o nosso primeiro planeta será também o nosso último. Talvez não seja cedo para celebrar que o universo pode estar para sempre a salvo de nós.
                 

NOTAS
  1. Os exemplos se pode indefinidamente multiplicar: para nordestinos esmagados pela seca, o destino de esperança foi o sul Brasil; para gente apertada pela falta de oportunidade no interior, é a cidade grande. []
  2. Ou seja, nada mudou muito desde que a tradição cristã ensinou que podíamos violentar esta terra sem qualquer escrúpulo porque em breve Deus nos daria outra. []
  3. Essa quebra de paradigma tem se refletido na própria ficção científica. O seu mito de migração redentora permanece mais ou menos inalterado, mas com cada vez menos frequência chegamos a esse novo destino através de foguetes, tecnologia convencional ou iniciativa humana. Daí a crescente importância, na literatura de ficção científica mais recente, de abismos negros, portais, wormholes e fendas no tecido espaço-tempo – soluções ou atalhos que aproximam-se, em espírito e em execução, do arrebatamento dos santos e da transição ao céu prometidos pela tradição cristã. Exemplos: a saga Stargate e as séries Primeval, Torchwood e Terra Nova. []

domingo, 2 de outubro de 2011

Comentários de pastor evangélico sobre Alzheimer causam agitação nos EUA


Erik Eckholm

A sugestão do pastor evangélico Pat Robertson de que um homem cuja esposa “se foi” devido ao mal de Alzheimer deve se divorciar dela, caso sinta a necessidade de uma nova companheira, provocou uma tempestade de condenação por parte de outros líderes cristãos, mas uma resposta mais mista, até mesmo compreensiva, por parte de médicos e defensores de pacientes.

Em seu programa de televisão, “The 700 Club”, na terça-feira, Robertson, um evangélico proeminente que já concorreu à presidência, recebeu um telefonema de um homem que perguntou como ele deveria aconselhar um amigo, cuja esposa estava com demência avançada e não mais o reconhecia.

“A esposa dele, como ele a conhece, se foi”, disse o autor da pergunta, e o amigo “está amargo com Deus por permitir que sua esposa esteja nessa condição, e agora ele começou a sair com outra mulher”.

“Isso é uma coisa terrivelmente difícil”, disse Robertson, claramente tendo dificuldade para encontrar um caminho naquela situação. “Eu odeio o Alzheimer. É uma das coisas mais terríveis, porque ali está o ente querido –a mulher ou homem que alguém amou por 20, 30, 40 anos, e de repente aquela pessoa se foi.”

“Eu sei que soa cruel”, ele prosseguiu, “mas se ele pretende fazer algo, ele deve se divorciar dela e começar tudo de novo, mas assegurar que ela receba os cuidados, que alguém cuide dela”.
Quando a co-apresentadora de Robertson no programa perguntou se aquilo era consistente com os votos matrimoniais, Robertson notou a promessa do “até que a morte nos separe”, mas acrescentou, “isso é um tipo de morte”.

Ele disse que a pergunta lhe apresentou um dilema ético além de sua capacidade de responder.
“Eu certamente não faria você se sentir culpada se decidisse que precisa ter uma companhia, que se sente só e precisa de companhia”, disse Robertson.

A reação de muitos líderes evangélicos, que veem o casamento tradicional, para toda a vida, como a pedra fundamental da moralidade e da sociedade, foi dura e de descrença.

“Isso é mais do que um embaraço”, escreveu Russell D. Moore, reitor da Escola de Teologia do Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, Kentucky, em um blog na quinta-feira. “Isso é mais do que cruel. Isso é um repúdio ao evangelho de Jesus Cristo.”

Mas Beth Kallmyer, diretora sênior de serviços da Associação do Alzheimer, em Chicago, se recusou a questionar os comentários de Robertson.

“Esta é uma doença desafiadora, devastadora e no final terminal, que afeta todo mundo de modo diferente”, ela disse. “O mais importante é que as famílias recebam ajuda.”

Na experiência da associação, ela disse, é raro as pessoas se divorciarem devido ao Alzheimer. Mas o Alzheimer pode durar anos ou décadas, piorando progressivamente.

“As decisões que as pessoas tomam são pessoais”, disse Kallmyer.

A médica Amanda Smith, diretora do Instituto do Alzheimer da Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, disse sobre os comentários de Robertson: “Eu acho que ele tentou dar para alguém a liberdade de seguir em frente, mas ele levou em consideração apenas quem cuida, sem levar em consideração a paciente”.

“Mesmo quando alguém não reconhece um cônjuge como sendo especificamente seu cônjuge, frequentemente há uma familiaridade com a pessoa e uma sensação de conforto, especialmente se estiverem casados há décadas”, disse Smith.

Ao mesmo tempo, disse Smith, quando a doença está avançada, ela não vê nada errado com os prestadores de cuidados desenvolverem outros relacionamentos “que tragam alegria e preencham o vazio”. Da mesma forma, ela disse, “não há problema se um paciente em uma clínica encontra uma namorada com a qual se sentar ao jantar toda noite”.

James E. Galvin, neurologista que dirige uma clínica de demência no Centro Médico Langone da Universidade de Nova York, disse que é errado afirmar que as pessoas com Alzheimer “se foram”, ou chamar seus últimos estágios de “um tipo de morte”.

“Apesar de ser verdade que nos estágios terminais os pacientes podem não estar plenamente cientes do que está acontecendo, eles tendem a reconhecer as pessoas que estão mais próximas deles”, disse Galvin.

“Com bons cuidados, as pessoas podem viver 15 a 20 anos com a doença, grande parte desse tempo em casa”, disse Galvin. Se eventualmente se mudarem para uma clínica e parecerem não saber o que está acontecendo ao seu redor, ele disse, então os cônjuges enfrentam uma “decisão individual” sobre quando e como desenvolver novos relacionamentos, baseada em religião e ética, não em ciência.

Robertson ajudou a transformar a Coalizão Cristã em uma força política formidável nos anos 90 e é um televangelista popular. Mas ao longo dos anos, ele também provocou fúria entre alguns cristãos conservadores, com declarações consideradas não ortodoxas para um grupo ou outro, incluindo a defesa da política de um só filho da China e as afirmações de que eventos terríveis como os ataques terroristas de 11 de setembro de 2011 e o terremoto do Haiti foram punições de Deus.

“Poucos cristãos ainda levam Robertson a sério”, escreveu Moore, do seminário batista do Sul. “A maioria vira os olhos para cima e balança suas cabeças quando ele faz outro comentário bizarro.”

Por meio de um porta-voz, Robertson se recusou a falar sobre seus comentários na televisão.

Tradução: George El Khouri Andolfato

O que Copa e Olimpíadas fazem pelas cidades?

Por RENATA NEDER, da ONG Action Aid

“Bilhões de dólares foram gastos em estádios e outras obras, mas nós permanecemos em barracos sem energia. Eles pediram para a gente “sentir a Copa” [expressão usada no slogan oficial do evento], mas nós não sentimos nada além da dor da pobreza piorada pela dor da repressão. O dinheiro que deveria ser gasto urbanizando as comunidades mais pobres foi desperdiçado. A Copa do Mundo vai terminar no domingo e nós ainda seremos pobres.”

Essa foi a fala de um jovem de Johannesburgo durante a Copa do Mundo de 2010. Reflete o sentimento de muitos sul-africanos em relação ao evento.

Eu estive na África do Sul alguns meses antes do início da Copa. Encontrei um país em obras e muita gente reclamando. Mas, quando os jogos começam, os problemas costumam ser esquecidos. Passada a euforia do momento, começam as discussões sobre os impactos do evento, o uso dos recursos, quem se beneficiou realmente… e por aí vai.

Essa discussão não termina, porque acaba emendando nas discussões daqueles que já estão preocupados com o futuro das suas cidades que serão sede das próximas Copas e Olimpíadas. Já existem muitas informações disponíveis e que merecem atenção.

Em 2010, as Nações Unidas lançaram um relatório sobre o impacto das Olimpíadas nas cidades-sede. Os números são chocantes. Seul (1988): 15% da população foi desalojada, 48 mil edifícios foram destruídos. Pequim (2008): Um milhão e meio de pessoas foram removidas. Atlanta (1996): 15 mil pessoas removidas. E essas remoções e despejos, na maior parte das vezes, foram feitos de forma violenta e desrespeitando direitos básicos da população.

Além do impacto direto das obras e de como elas são feitas, também há o ponto importante de quem realmente se beneficia com a realização destes eventos. Na África do Sul, por exemplo, muitos homens e mulheres artesãos, comerciantes, vendedores, trabalhadores, etc, acreditaram que poderiam se beneficiar e aumentar um pouco sua renda durante os jogos. Mas não foi assim. Os pequenos comerciantes e artesãos não tiveram acesso aos estádios e arredores. Um perímetro de exclusividade foi criado ao redor dos estádios. Ali, apenas as grandes redes e marcas poderiam comercializar seus produtos. Resultado: quem lucrou foram as grandes empresas, não os sul africanos.

E falando em estádio… hoje, apenas um ano depois da Copa, já se discute na África do Sul a demolição de alguns dos estádios construídos. O custo da manutenção é alto demais, não justifica manter o “elefante branco” em pé.

E o que falar dos gastos? A Copa da África do Sul acabou custando 17 vezes mais do que o previsto inicialmente. Cidades que foram sede de mega eventos se endividaram além de suas capacidades e passaram muitos anos pagando a conta. È o caso de Atenas (2004) e Montreal (1976) que sediaram os Jogos Olímpicos.

Quanto mais investigamos, mais vemos cenários desanimadores. Mas, como disse o cientista político Antonio Gramsci, não devemos ficar apenas no pessimismo da razão. Devemos ter o otimismo da vontade.

O otimismo da minha vontade diz que é possível trilhar outros caminhos em que a realização de megaeventos esportivos promova inclusão social, gere renda e diminua desigualdades. Mas o caminho que leva a esse legado é o caminho da participação popular, da transparência, do controle social sobre as políticas e uso de recursos públicos.

O Brasil e o Rio de Janeiro podem aprender muito com outras experiências e escolher um caminho melhor para a realização da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016.

Extraído do sítio da revista “Época”. Leia aqui.
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